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PRÓLOGO
DA REGRA
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[1] Escuta,
filho, os preceitos do Mestre, e inclina o ouvido do teu
coração; recebe de boa vontade e executa eficazmente o conselho
de um bom pai, [2] para que voltes, pelo labor da obediência,
àquele de quem te afastaste pela desídia da desobediência. [3] A
ti, pois, se dirige agora a minha palavra, quem quer que sejas
que, renunciando às próprias vontades, empunhas as gloriosas e
poderosíssimas armas da obediência para militar sob o Cristo
Senhor, verdadeiro Rei.
[4] Antes de
tudo, quando encetares algo de bom, pede-lhe com oração muito
insistente que seja por ele plenamente realizado, [5] a fim de
que nunca venha a entristecer-se, por causa das nossas más
ações, aquele que já se dignou contar-nos no número de seus
filhos; [6] assim, pois, devemos obedecer-lhe em todo tempo,
usando de seus dons a nós concedidos para que não só não venha
jamais, como pai irado, a deserdar seus filhos, [7] nem tenha
também, qual Senhor temível, irritado com nossas más ações, de
entregar-nos à pena eterna como péssimos servos que o não
quiseram seguir para a glória.
[8]
Levantemo-nos então finalmente, pois a Escritura nos desperta
dizendo: "Já é hora de nos levantarmos do sono". [9] E, com os
olhos abertos para a luz deífica, ouçamos, ouvidos atentos, o
que nos adverte a voz divina que clama todos os dias: [10]
"Hoje, se ouvirdes a sua voz, não permitais que se endureçam
vossos corações", [11] e de novo: "Quem tem ouvidos para ouvir,
ouça o que o Espírito diz às igrejas". [12] E que diz? – "Vinde,
meus filhos, ouvi-me, eu vos ensinarei o temor do Senhor. [13]
Correi enquanto tiverdes a luz da vida, para que as trevas da
morte não vos envolvam".
[14] E
procurando o Senhor o seu operário na multidão do povo, ao qual
clama estas coisas, diz ainda: [15] "Qual é o homem que quer a
vida e deseja ver dias felizes?" [16] Se, ouvindo, responderes:
"Eu", dir-te-á Deus: [17] "Se queres possuir a verdadeira e
perpétua vida, guarda a tua língua de dizer o mal e que teus
lábios não profiram a falsidade, afasta-te do mal e faze o bem,
procura a paz e segue-a". [18] E quando tiveres feito isso,
estarão meus olhos sobre ti e meus ouvidos junto às tuas preces,
e antes que me invoques dir-te-ei: "Eis-me aqui". [19] Que há de
mais doce para nós, caríssimos irmãos, do que esta voz do Senhor
a convidar-nos? [20] Eis que pela sua piedade nos mostra o
Senhor o caminho da vida.
[21] Cingidos,
pois, os rins com a fé e a observância das boas ações, guiados
pelo Evangelho, trilhemos os seus caminhos para que mereçamos
ver aquele que nos chamou para o seu reino. [22] Se queremos
habitar na tenda real do acampamento desse reino, é preciso
correr pelo caminho das boas obras, de outra forma nunca se há
de chegar lá. [23] Mas, com o profeta, interroguemos o Senhor,
dizendo-lhe: "Senhor, quem habitará na vossa tenda e descansará
na vossa montanha santa?". [24] Depois dessa pergunta, irmãos,
ouçamos o Senhor que responde e nos mostra o caminho dessa mesma
tenda, [25] dizendo: "É aquele que caminha sem mancha e realiza
a justiça; [26] aquele que fala a verdade no seu coração, que
não traz o dolo em sua língua, [27] que não faz o mal ao próximo
e não dá acolhida à injúria contra o seu próximo". [28] É aquele
que quando o maligno diabo tenta persuadi-lo de alguma coisa,
repelindo-o das vistas do seu coração, a ele e suas sugestões,
redu-lo a nada, agarra os seus pensamentos ainda ao nascer e
quebra-os de encontro ao Cristo. [29] São aqueles que, temendo o
Senhor, não se tornam orgulhosos por causa de sua boa
observância, mas, julgando que mesmo as coisas boas que têm em
si não as puderam por si, mas foram feitas pelo Senhor, [30]
glorificam Aquele que neles opera, dizendo com o profeta: "Não a
nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai Glória". [31]
Como, aliás, o Apóstolo Paulo não atribuía a si próprio coisa
alguma de sua pregação, quando dizia: "Pela graça de Deus sou o
que sou" [32] e ainda: "Quem se glorifica, que se glorifique no
Senhor".
[33] Eis
porque no Evangelho diz o Senhor: "Àquele que ouve estas minhas
palavras e as põe em prática, compará-lo-ei ao homem sábio que
edificou sua casa sobre a pedra, [34] cresceram os rios,
sopraram os ventos e investiram contra a casa; e ela não ruiu
porque estava fundada sobre pedra". [35] Em conclusão espera o
Senhor todos os dias que nos empenhemos em responder com atos às
suas santas exortações. [36] Por essa razão, os dias desta vida
nos são prolongados como tréguas para a emenda dos nossos
vícios, [37] conforme diz o Apóstolo: "Então ignoras que a
paciência de Deus te conduz à penitência?". [38] Pois diz o bom
Senhor: "Não quero a morte do pecador, mas sim que se converta e
viva".
[39] Como,
pois, irmãos, interrogássemos o Senhor a respeito de quem mora
em sua tenda, ouvimos em resposta, qual a condição para lá
habitar: a nós compete cumprir com a obrigação do morador!
[40] Portanto,
é preciso preparar nossos corações e nossos corpos para militar
na santa obediência dos preceitos; [41] e em tudo aquilo que
nossa natureza tiver menores possibilidades, roguemos ao Senhor
que ordene a sua graça que nos preste auxílio. [42] E, se,
fugindo das penas do inferno, queremos chegar à vida eterna,
[43] enquanto é tempo, e ainda estamos neste corpo e é possível
realizar todas essas coisas no decorrer desta vida de luz, [44]
cumpre correr e agir, agora, de forma que nos aproveite para
sempre.
[45] Devemos,
pois, constituir uma escola de serviço do Senhor. [46] Nesta
instituição esperamos nada estabelecer de áspero ou de pesado.
[47] Mas se aparecer alguma coisa um pouco mais rigorosa, ditada
por motivo de eqüidade, para emenda dos vícios ou conservação da
caridade [48] não fujas logo, tomado de pavor, do caminho da
salvação, que nunca se abre senão por estreito início. [49] Mas,
com o progresso da vida monástica e da fé, dilata-se o coração e
com inenarrável doçura de amor é percorrido o caminho dos
mandamentos de Deus. [50] De modo que não nos separando jamais
do seu magistério e perseverando no mosteiro, sob a sua
doutrina, até a morte, participemos, pela paciência, dos
sofrimentos do Cristo a fim de também merecermos ser
co-herdeiros de seu reino. Amém.
[Termina o
Prólogo]
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COMEÇA O TEXTO DA REGRA
É chamada Regra porque dirige os
Costumes dos que a ela obedecem
CAPÍTULO 1: Dos
gêneros de monges
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[1] É sabido
que há quatro gêneros de monges. [2] O primeiro é o dos
cenobitas, isto é, o monasterial, dos que militam sob uma Regra
e um Abade.
[3] O segundo
gênero é o dos anacoretas, isto é, dos eremitas, daqueles que,
não por um fervor inicial da vida monástica, mas através de
provação diuturna no mosteiro, [4] instruídos então na companhia
de muitos aprenderam a lutar contra o demônio [5] e, bem
adestrados nas fileiras fraternas, já estão seguros para a luta
isolada do deserto, sem a consolação de outrem, e aptos para
combater com as próprias mãos e braços, ajudando-os Deus, contra
os vícios da carne e dos pensamentos.
[6] O terceiro
gênero de monges, e detestável, é o dos sarabaítas, que, não
tendo sido provados, como o ouro na fornalha, por nenhuma regra,
mestra pela experiência, mas amolecidos como numa natureza de
chumbo, [7] conservam-se por suas obras fiéis ao século, e são
conhecidos por mentir a Deus pela tonsura. [8] São aqueles que
se encerram dois ou três ou mesmo sozinhos, sem pastor, não nos
apriscos do Senhor, mas nos seus próprios; a satisfação dos
desejos é para eles lei, [9] visto que tudo quanto julgam dever
fazer ou preferem, chamam de santo, e o que não desejam reputam
ilícito.
[10] O quarto
gênero de monges é o chamado dos giróvagos, que por toda a sua
vida se hospedam nas diferentes províncias, por três ou quatro
dias nas celas de outros monges, [11] sempre vagando e nunca
estáveis, escravos das próprias vontades e das seduções da gula,
e em tudo piores que os sarabaítas. [12] Sobre o misérrimo modo
de vida de todos esses é melhor calar que dizer algo.
[13]
Deixando-os de parte, vamos dispor, com o auxilio do Senhor,
sobre o poderosíssimo gênero dos cenobitas.
CAPÍTULO 2 - Como
deve ser o Abade
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[1] O Abade
digno de presidir ao mosteiro, deve lembrar-se sempre daquilo
que é chamado, e corresponder pelas ações ao nome de superior.
[2] Com efeito, crê-se que, no mosteiro ele faz as vezes do
Cristo, pois é chamado pelo mesmo cognome que Este, [3] no dizer
do Apóstolo: "Recebestes o espírito de adoção de filhos, no qual
clamamos: ABBA, Pai.[4] " Por isso o Abade nada deve ensinar,
determinar ou ordenar, que seja contrário ao preceito do Senhor,
[5] mas que a sua ordem e ensinamento, como o fermento da divina
justiça se espalhe na mente dos discípulos; [6] lembre-se sempre
o abade de que da sua doutrina e da obediência dos discípulos,
de ambas essas coisas, será feita apreciação no tremendo juízo
de Deus.
[7] E saiba o
Abade que é atribuído à culpa do pastor tudo aquilo que o Pai de
família puder encontrar de menos no progresso das ovelhas. [8]
Em compensação, de outra maneira será, se a um rebanho
irrequieto e desobediente tiver sido dispensada toda diligência
do pastor e oferecido todo o empenho na cura de seu atos
malsãos; [9] absolvido então o pastor no juízo do Senhor, diga
ao mesmo com o Profeta: "Não escondi vossa justiça em meu
coração, manifestei vossa verdade e a vossa salvação; eles,
porém, com desdém desprezaram-me". [10] E então, finalmente, que
prevaleça a própria morte como pena para as ovelhas que
desobedeceram aos seus cuidados.
[11] Portanto,
quando alguém recebe o nome de Abade, deve presidir a seus
discípulos usando de uma dupla doutrina, [12] isto é, apresente
as coisas boas e santas, mais pelas ações do que pelas palavras,
de modo que aos discípulos capazes de entendê-las proponha os
mandamentos do Senhor por meio de palavras, e aos duros de
coração e aos mais simples mostre os preceitos divinos pelas
próprias ações. [13] Assim, tudo quanto ensinar aos discípulos
como sendo nocivo, indique pela sua maneira de agir que não se
deve praticar, a fim de que. pregando aos outros, não se torne
ele próprio réprobo, [14] e Deus não lhe diga um dia como a um
pecador: "Por que narras as minhas leis e anuncias o meu
testamento pela tua boca? tu que odiaste a disciplina e atiraste
para trás de ti as minhas palavras", [15] e ainda: "Vias o
argueiro no olho de teu irmão e não viste a trave no teu
próprio".
[16] Que não
seja feita por ele distinção de pessoas no mosteiro. [17] Que um
não seja mais amado que outro, a não ser aquele que for
reconhecido melhor nas boas ações ou na obediência. [18] Não
anteponha o nascido livre ao originário de condição servil, a
não ser que exista outra causa razoável para isso; [19] pois se
parecer ao Abade que deve fazê-lo por questão de justiça,
fá-lo-á seja qual for a condição social; caso contrário,
mantenham todos seus próprios lugares, [20] porque, servo ou
livre, somos todos um em Cristo e sob um só Senhor caminhamos
submissos na mesma milícia de servidão: "Porque não há em Deus
acepção de pessoas". [21] Somente num ponto somos por ele
distinguidos, isto é, se formos melhores do que os outros nas
boas obras e humildes. [22] Seja pois igual a caridade dele para
com todos; que uma só disciplina seja proposta a todos, conforme
os merecimentos de cada um.
[23] Portanto,
em sua doutrina deve sempre o Abade observar aquela fórmula do
Apóstolo: "Repreende, exorta, admoesta", [24] isto é, temperando
as ocasiões umas com as outras, os carinhos com os rigores,
mostre a severidade de um mestre e o pio afeto de um pai, quer
dizer: [25] aos indisciplinados e inquietos deve repreender mais
duramente, mas aos obedientes, mansos e pacientes, deve exortar
a que progridam ainda mais, e quanto aos negligentes e
desdenhosos, advertimos que os repreenda e castigue. [26] Não
dissimule as faltas dos culpados, mas logo que começarem a
brotar ampute-as pela raiz, como lhe for possível, lembrando-se
da desgraça de Heli, sacerdote de Silo. [27] Aos mais honestos e
de ânimo compreensível, censure por palavras em primeira e
segunda advertência; [28] porém aos improbos, duros e soberbos
ou desobedientes reprima com varadas ou outro castigo corporal,
desde o início da falta, sabendo que está escrito: "O estulto
não se corrige com palavras". [29] E mais: "Bate no teu filho
com a vara e livrarás a sua alma da morte".
[30] Deve
sempre lembrar-se o Abade daquilo que é; lembrar-se de como é
chamado, e saber que daquele a quem mais se confia mais se
exige. [31] E saiba que coisa difícil e árdua recebeu: reger as
almas e servir aos temperamentos de muitos; a este com carinho,
àquele, porém, com repreensões, a outro com persuasões [32]
segundo a maneira de ser ou a inteligência de cada um, de tal
modo se conforme e se adapte a todos, que não somente não venha
a sofrer perdas no rebanho que lhe foi confiado, mas também se
alegre com o aumento da boa grei.
[33] Antes de
tudo, que não trate com mais solicitude das coisas transitórias,
terrenas e caducas, negligenciando ou tendo em pouco a salvação
das almas que lhe foram confiadas, [34] mas pense sempre que
recebeu almas a dirigir, das quais deverá também prestar contas.
[35] E para que não venha, porventura, a alegar falta de
recursos, lembrar-se-á do que esta escrito: "Buscai primeiro
reino de Deus e sua justiça, e todas as coisas vos serão dadas
por acréscimo"; [36] e ainda: "Nada falta aos que O temem". [37]
E saiba que quem recebeu almas a dirigir, deve preparar-se para
prestar contas. [38] Saiba como certo que de todo o número de
irmãos que tiver possuído sob seu cuidado, no dia do juízo,
deverá prestar contas ao Senhor das almas de todos eles, e mais,
sem dúvida também da sua própria alma. [39] E assim, temendo
sempre a futura apreciação do pastor acerca das ovelhas que lhe
foram confiadas enquanto cuida das contas alheias, torna-se
solícito para com a suas próprias, [40] e enquanto com suas
exortações subministra a emenda aos outros, consegue ele próprio
emendar-se de seu vícios.
CAPÍTULO 3 - Da convocação dos irmãos a conselho
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[1] Todas as
vezes que deverem ser feitas coisas importantes no mosteiro,
convoque o Abade toda a comunidade e diga ele próprio de que se
trata. [2] Ouvindo o conselho dos irmãos, considere consigo
mesmo e faça o que julgar mais útil. [3] Dissemos que todos
fossem chamados a conselho porque muitas vezes o Senhor revela
ao mais moço o que é melhor. [4] Dêem pois os irmãos o seu
conselho com toda a submissão da humildade e não ousem defender
arrogantemente o seu parecer, e [5] que a solução dependa antes
do arbítrio do Abade, e todos lhe obedeçam no que ele tiver
julgado ser mais salutar; [6] mas, assim como convém aos
discípulos obedecer ao mestre, também a este convém dispor todas
as coisas com prudência e justiça.
[7] Em tudo,
pois, sigam todos a Regra como mestra, nem dela se desvie alguém
temerariamente. [8] Ninguém, no mosteiro, siga a vontade do
próprio coração, [9] nem ouse discutir insolentemente com seu
abade, nem mesmo discutir com ele fora do mosteiro. [10] E, se
ousar fazê-lo, seja submetido à disciplina regular. [11] No
entanto, que o próprio abade faça tudo com temor de Deus e
observância da Regra, cônscio de que, sem dúvida alguma, de
todos os seus juízos deverá dar contas a Deus, justíssimo juiz.
[12] Se, porém, for preciso fazer alguma coisa de menor
importância dentre os negócios do mosteiro, use o Abade somente
do conselho dos mais velhos, [13] conforme o que está escrito:
"Faze tudo com conselho e depois de feito não te arrependerás".
CAPÍTULO 4 - Quais são os instrumentos das boas obras
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[1]
Primeiramente, amar ao Senhor Deus de todo o coração, com toda a
alma, com todas as forças.
[2] Depois, amar ao próximo como a si mesmo.
[3] Em seguida, não matar.
[4] Não cometer adultério.
[5] Não furtar.
[6] Não cobiçar.
[7] Não levantar falso testemunho.
[8] Honrar todos os homens.
[9] E não fazer a outrem o que não quer que lhe seja feito.
[10] Abnegar-se a si mesmo para seguir o Cristo.
[11] Castigar o corpo.
[12] Não abraçar as delícias.
[13] Amar o jejum.
[14] Reconfortar os pobres.
[15] Vestir os nus.
[16] Visitar os enfermos.
[17] Sepultar os mortos.
[18] Socorrer na tribulação.
[19] Consolar o que sofre.
[20] Fazer-se alheio às coisas do mundo.
[21] Nada antepor ao amor de Cristo.
[22] Não satisfazer a ira.
[23] Não reservar tempo para a cólera.
[24] Não conservar a falsidade no coração.
[25] Não conceder paz simulada.
[26] Não se afastar da caridade.
[27] Não jurar para não vir a perjurar.
[28] Proferir a verdade de coração e de boca.
[29] Não retribuir o mal com o mal.
[30] Não fazer injustiça, mas suportar pacientemente as que lhe
são feitas.
[31] Amar os inimigos.
[32] Não retribuir com maldição aos que o amaldiçoam, mas antes
abençoá-los.
[33] Suportar perseguição pela justiça.
[34] Não ser soberbo.
[35] Não ser dado ao vinho.
[36] Não ser guloso.
[37] Não ser apegado ao sono.
[38] Não ser preguiçoso.
[39] Não ser murmurador.
[40] Não ser detrator.
[41] Colocar toda a esperança em Deus.
[42] O que achar de bem em si, atribuí-lo a Deus e não a si
mesmo.
[43] Mas, quanto ao mal, saber que é sempre obra sua e a si
mesmo atribuí-lo.
[44] Temer o dia do juízo.
[45] Ter pavor do inferno.
[46] Desejar a vida eterna com toda a cobiça espiritual.
[47] Ter diariamente diante dos olhos a morte a surpreendê-lo.
[48] Vigiar a toda hora os atos de sua vida.
[49] Saber como certo que Deus o vê em todo lugar.
[50] Quebrar imediatamente de encontro ao Cristo os maus
pensamentos que lhe advêm ao coração e revelá-los a um
conselheiro espiritual.
[51] Guardar sua boca da palavra má ou perversa.
[52] Não gostar de falar muito.
[53] Não falar palavras vãs ou que só sirvam para provocar riso.
[54] Não gostar do riso excessivo ou ruidoso.
[55] Ouvir de boa vontade as santas leituras.
[56] Dar-se freqüentemente à oração.
[57] Confessar todos os dias a Deus na oração, com lágrimas e
gemidos, as faltas passadas e [58] daí por diante emendar-se
delas.
[59] Não satisfazer os desejos da carne.
[60] Odiar a própria vontade.
[61] Obedecer em tudo às ordens do Abade, mesmo que este, o que
não aconteça, proceda de outra forma, lembrando-se do preceito
do Senhor: "Fazei o que dizem, mas não o que fazem".
[62] Não querer ser tido como santo antes que o seja, mas
primeiramente sê-lo para que como tal o tenham com mais
fundamento.
[63] Pôr em prática diariamente os preceitos de Deus.
[64] Amar a castidade.
[65] Não odiar a ninguém.
[66] Não ter ciúmes.
[67] Não exercer a inveja.
[68] Não amar a rixa.
[69] Fugir da vanglória.
[70] Venerar os mais velhos.
[71] Amar os mais moços.
[72] Orar, no amor de Cristo, pelos inimigos.
[73] Voltar à paz, antes do pôr-do-sol, com aqueles com quem
teve desavença.
[74] E nunca desesperar da misericórdia de Deus.
[75] Eis aí os instrumentos da arte espiritual: [76] se forem
postos em ação por nós, dia e noite, sem cessar, e devolvidos no
dia do juízo, seremos recompensados pelo Senhor com aquele
prêmio que Ele mesmo prometeu: [77] "O que olhos não viram nem
ouvidos ouviram preparou Deus para aqueles que o amam". [78]
São, porém, os claustros do mosteiro e a estabilidade na
comunidade a oficina onde executaremos diligentemente tudo isso.
CAPÍTULO 5 - Da obediência
[ voltar ]
[1] O primeiro
grau da humildade é a obediência sem demora. [2] É peculiar
àqueles que estimam nada haver mais caro que o Cristo; [3] por
causa do santo serviço que professaram, por causa do medo do
inferno ou por causa da glória da vida eterna, [4] desconhecem o
que seja demorar na execução de alguma coisa logo que ordenada
pelo superior, como sendo por Deus ordenada. [5] Deles diz o
Senhor: "Logo ao ouvir-me, obedeceu-me". [6] E do mesmo modo diz
aos doutores: "Quem vos ouve a mim ouve".
[7] Pois são
esses mesmos que, deixando imediatamente as coisas que lhes
dizem respeito e abandonando a própria vontade, [8] desocupando
logo as mãos e deixando inacabado o que faziam, seguem com seus
atos, tendo os passos já dispostos para a obediência, a voz de
quem ordena. [9] E, como que num só momento, ambas as coisas - a
ordem recém-dada do mestre e a perfeita obediência do discípulo
- são realizadas simultânea e rapidamente, na prontidão do temor
de Deus. [10] Apodera-se deles o desejo de caminhar para a vida
eterna; [11] por isso, lançam-se como que de assalto ao caminho
estreito do qual diz o Senhor: "Estreito é o caminho que conduz
à vida", [12] e assim, não tendo, como norma de vida a própria
vontade, nem obedecendo aos próprios desejos e prazeres, mas
caminhando sob o juízo e domínio de outro e vivendo em
comunidade, desejam que um Abade lhes presida. [13] Imitam, sem
dúvida, aquela máxima do Senhor que diz: "Não vim fazer minha
vontade, mas a d’Aquele que me enviou".
[14] Mas
essa mesma obediência somente será digna da aceitação de Deus e
doce aos homens, se o que é ordenado for executado sem tremor,
sem delongas, não mornamente, não com murmuração, nem com
resposta de quem não quer. [15] Porque a obediência prestada aos
superiores é tributada a Deus. Ele próprio disse: "Quem vos
ouve, a mim me ouve". [16] E convém que seja prestada de boa
vontade pelos discípulos, porque "Deus ama aquele que dá com
alegria". [17] Pois, se o discípulo obedecer de má vontade e se
murmurar, mesmo que não com a boca, mas só no coração, [18]
ainda que cumpra a ordem, não será mais o seu ato aceito por
Deus que vê seu coração a murmurar; [19] e por tal ação não
consegue graça alguma, e, ainda mais, incorre no castigo dos
murmuradores se não se emendar pela satisfação.
CAPÍTULO 6 - Do silêncio
[ voltar ]
[1] Façamos o
que diz o profeta: "Eu disse, guardarei os meus caminhos para
que não peque pela língua: pus uma guarda à minha boca: emudeci,
humilhei-me e calei as coisas boas". [2] Aqui mostra o Profeta
que, se, às vezes, se devem calar mesmo as boas conversas, por
causa do silêncio, quanto mais não deverão ser suprimidas as más
palavras, por causa do castigo do pecado? [3] Por isso, ainda
que se trate de conversas boas, santas e próprias a edificar,
raramente seja concedida aos discípulos perfeitos licença de
falar, por causa da gravidade do silêncio, [4] pois está
escrito: "Falando muito não foges ao pecado", [5] e em outro
lugar: "a morte e a vida estão em poder da língua". [6] Com
efeito, falar e ensinar compete ao mestre; ao discípulo convém
calar e ouvir.
[7] Por isso,
se é preciso pedir alguma coisa ao superior, que se peça com
toda a humildade e submissão da reverência. [8] Já quanto às
brincadeiras, palavras ociosas e que provocam riso,
condenamo-las em todos os lugares a uma eterna clausura, para
tais palavras não permitimos ao discípulo abrir a boca.
CAPÍTULO 7 - Da humildade
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[1] Irmãos, a
Escritura divina nos clama dizendo: "Todo aquele que se exalta
será humilhado e todo aquele que se humilha será exaltado". [2]
Indica-nos com isso que toda elevação é um gênero da soberba,
[3] da qual o Profeta mostra precaver-se quando diz: "Senhor, o
meu coração não se exaltou, nem foram altivos meus olhos; não
andei nas grandezas, nem em maravilhas acima de mim. [4] Mas,
que seria de mim se não me tivesse feito humilde, se tivesse
exaltado minha alma? Como aquele que é desmamado de sua mãe,
assim retribuirias a minha alma.
[5] Se,
portanto, irmãos, queremos atingir o cume da suma humildade e se
queremos chegar rapidamente àquela exaltação celeste para a qual
se sobe pela humildade da vida presente, [6] deve ser erguida,
pela ascensão de nossos atos, aquela escada que apareceu em
sonho a Jacó, na qual lhe eram mostrados anjos que subiam e
desciam. [7] Essa descida e subida, sem dúvida, outra coisa não
significa, para nós, senão que pela exaltação se desce e pela
humildade se sobe. [8] Essa escada ereta é a nossa vida no
mundo, a qual é elevada ao céu pelo Senhor, se nosso coração se
humilha. [9] Quanto aos lados da escada, dizemos que são o nosso
corpo e alma, e nesses lados a vocação divina inseriu, para
serem galgados, os diversos graus da humildade e da disciplina.
[10] Assim, o
primeiro grau da humildade consiste em que, pondo sempre o monge
diante dos olhos o temor de Deus, evite, absolutamente, qualquer
esquecimento, [11] e esteja, ao contrário, sempre lembrado de
tudo o que Deus ordenou, revolva sempre, no espírito, não só que
o inferno queima, por causa de seus pecados, os que desprezam a
Deus, mas também que a vida eterna está preparada para os que
temem a Deus; [12] e, defendendo-se a todo tempo dos pecados e
vícios, isto é, dos pecados do pensamento, da língua, das mãos,
dos pés e da vontade própria, como também dos desejos da carne,
[13] considere-se o homem visto do céu, a todo momento, por
Deus, e suas ações vistas em toda parte pelo olhar da divindade
e anunciadas a todo instante pelos anjos. [14] Mostra-nos isso o
Profeta quando afirma estar Deus sempre presente aos nossos
pensamentos: "Deus que perscruta os corações e os rins". [15] E
também: "Deus conhece os pensamentos dos homens". [16] E ainda:
"De longe percebestes os meus pensamentos" [17] e "o pensamento
do homem vos será confessado". [18] Portanto, para que esteja
vigilante quanto aos seus pensamentos maus, diga sempre, em seu
coração, o irmão empenhado em seu próprio bem: "se me preservar
da minha iniqüidade, serei, então, imaculado diante d’Ele".
[19] Assim,
é-nos proibido fazer a própria vontade, visto que nos diz a
Escritura: "Afasta-te das tuas próprias vontades". [20] E,
também, porque rogamos a Deus na oração que se faça em nós a sua
vontade.
[21]
Aprendemos, pois, com razão, a não fazer a própria vontade,
enquanto nos acautelamos com aquilo que diz a Escritura: "Há
caminhos considerados retos pelos homens cujo fim mergulha até o
fundo do inferno", [22] e enquanto, também, nos apavoramos com o
que foi dito dos negligentes: "Corromperam-se e tornaram-se
abomináveis nos seus prazeres". [23] Por isso, quando nos
achamos diante dos desejos da carne, creiamos que Deus está
sempre presente junto a nós, pois disse o Profeta ao Senhor:
"Diante de vós está todo o meu desejo".
[24] Devemos,
portanto, acautelar-nos contra o mau desejo, porque a morte foi
colocada junto à porta do prazer. [25] Sobre isso a Escritura
preceitua dizendo: "Não andes atrás de tuas concupiscências".
[26] Logo, se os olhos do Senhor "observam os bons e os maus",
[27] e "o Senhor sempre olha do céu os filhos dos homens para
ver se há algum inteligente ou que procura a Deus" [28] e se,
pelos anjos que nos foram designados, todas as coisas que
fazemos são, cotidianamente, dia e noite, anunciadas ao Senhor,
[29] devemos ter cuidado, irmãos, a toda hora, como diz o
Profeta no salmo, para que não aconteça que Deus nos veja no
momento em que caímos no mal, tornando-nos inúteis, [30] e para
que, vindo a poupar-nos nessa ocasião porque é Bom e espera
sempre que nos tornemos melhores, não venha a dizer-nos no
futuro: "Fizeste isto e calei-me".
[31] O segundo
grau da humildade consiste em que, não amando a própria vontade,
não se deleite o monge em realizar os seus desejos, [32] mas
imite nas ações aquela palavra do Senhor: "Não vim fazer a minha
vontade, mas a d’Aquele que me enviou". [33] Do mesmo modo, diz
a Escritura: "O prazer traz consigo a pena e a necessidade gera
a coroa".
[34] O
terceiro grau da humildade consiste em que, por amor de Deus, se
submeta o monge, com inteira obediência ao superior, imitando o
Senhor, de quem disse o Apóstolo: "Fez-se obediente até a
morte".
[35] O quarto
grau da humildade consiste em que, no exercício dessa mesma
obediência abrace o monge a paciência, de ânimo sereno, nas
coisas duras e adversas, ainda mesmo que se lhe tenham dirigido
injúrias, [36] e, suportando tudo, não se entregue nem se vá
embora, pois diz a Escritura: "Aquele que perseverar até o fim
será salvo". [37] E também: "Que se revigore o teu coração e
suporta o Senhor". [38] E a fim de mostrar que o que é fiel deve
suportar todas as coisas, mesmo as adversas, pelo Senhor, diz a
Escritura, na pessoa dos que sofrem: "Por vós, somos entregues
todos os dias à morte; somos considerados como ovelhas a serem
sacrificadas". [39] Seguros na esperança da retribuição divina,
prosseguem alegres dizendo: "Mas superamos tudo por causa
daquele que nos amou". [40] Também, em outro lugar, diz a
Escritura: "Ó Deus, provastes-nos, experimentastes-nos no fogo,
como no fogo é provada a prata: induzistes-nos a cair no laço,
impusestes tribulações sobre os nossos ombros". [41] E para
mostrar que devemos estar submetidos a um superior, continua:
"Impusestes homens sobre nossas cabeças". [42] Cumprindo, além
disso, com paciência o preceito do Senhor nas adversidades e
injúrias, se lhes batem numa face, oferecem a outra; a quem lhes
toma a túnica cedem também o manto; obrigados a uma milha, andam
duas; [43] suportam, como Paulo Apóstolo, os falsos irmãos e
abençoam aqueles que os amaldiçoam.
[44] O quinto
grau da humildade consiste em não esconder o monge ao seu Abade
todos os maus pensamentos que lhe vêm ao coração, ou o que de
mal tenha cometido ocultamente, mas em lho revelar humildemente,
[45] exortando-nos a este respeito a Escritura quando diz:
"Revela ao Senhor o teu caminho e espera nele". [46] E quando
diz ainda: "Confessai ao Senhor porque ele é bom, porque sua
misericórdia é eterna". [47] Do mesmo modo o Profeta: "Dei a
conhecer a Vós a minha falta e não escondi as minhas injustiças.
[48] Disse: acusar-me-ei de minhas injustiças diante do Senhor,
e perdoastes a maldade de meu coração".
[49] O sexto
grau da humildade consiste em que esteja o monge contente com o
que há de mais vil e com a situação mais extrema e, em tudo que
lhe seja ordenado fazer, se considere mau e indigno operário,
[50] dizendo-se a si mesmo com o Profeta: "Fui reduzido a nada e
não o sabia; tornei-me como um animal diante de Vós, porém estou
sempre convosco".
[51] O sétimo
grau da humildade consiste em que o monge se diga inferior e
mais vil que todos, não só com a boca, mas que também o creia no
íntimo pulsar do coração, [52] humilhando-se e dizendo com o
Profeta: "Eu, porém, sou um verme e não um homem, a vergonha dos
homens e a abjeção do povo: [53] exaltei-me, mas, depois fui
humilhado e confundido". [54] E ainda: "É bom para mim que me
tenhais humilhado, para que aprenda os vossos mandamentos".
[55] O oitavo
grau da humildade consiste em que só faça o monge o que lhe
exortam a Regra comum do mosteiro e os exemplos de seus maiores.
[56] O nono
grau da humildade consiste em que o monge negue o falar a sua
língua, entregando-se ao silêncio; nada diga, até que seja
interrogado, [57] pois mostra a Escritura que "no muito falar
não se foge ao pecado" [58] e que "o homem que fala muito não se
encaminhará bem sobre a terra".
[59] O décimo
grau da humildade consiste em que não seja o monge fácil e
pronto ao riso, porque está escrito: "O estulto eleva sua voz
quando ri".
[60] O
undécimo grau da humildade consiste em, quando falar, fazê-lo o
monge suavemente e sem riso, humildemente e com gravidade, com
poucas e razoáveis palavras e não em alta voz, [61] conforme o
que está escrito: "O sábio manifesta-se com poucas palavras".
[62] O
duodécimo grau da humildade consiste em que não só no coração
tenha o monge a humildade, mas a deixe transparecer sempre, no
próprio corpo, aos que o vêem, [63] isto é, que no ofício
divino, no oratório, no mosteiro, na horta, quando em caminho,
no campo ou onde quer que esteja, sentado, andando ou em pé,
tenha sempre a cabeça inclinada, os olhos fixos no chão, [64]
considerando-se a cada momento culpado de seus pecados, tenha-se
já como presente diante do tremendo juízo de Deus, [65]
dizendo-se a si mesmo, no coração, aquilo que aquele publicano
do Evangelho disse, com os olhos pregados no chão: "Senhor, não
sou digno, eu pecador, de levantar os olhos aos céus". [66] E
ainda, com o Profeta: "Estou completamente curvado e humilhado".
[67] Tendo,
por conseguinte, subido todos esses degraus da humildade, o
monge atingirá logo, aquela caridade de Deus, que, quando
perfeita, afasta o temor; [68] por meio dela tudo o que
observava antes não sem medo começará a realizar sem nenhum
labor, como que naturalmente, pelo costume, [69] não mais por
temor do inferno, mas por amor de Cristo, pelo próprio costume
bom e pela deleitação das virtudes.
[70] Eis o
que, no seu operário, já purificado dos vícios e pecados, se
dignará o Senhor manifestar por meio do Espírito Santo.
CAPÍTULO 8 - Dos Ofícios Divinos durante a noite
[ voltar ]
[1] Em tempo
de inverno, isto é, de primeiro de novembro até a Páscoa, em
consideração ao que é razoável, devem os monges levantar-se à
oitava hora da noite [2] de modo que durmam um pouco mais da
metade da noite e se levantem tendo já feita a digestão. [3] O
tempo que resta depois das Vigílias seja empregado na preparação
de algum trecho do saltério ou das lições, por parte dos irmãos
que disto necessitarem. [4] Da Páscoa, porém, até o referido dia
primeiro de novembro, seja regulada a hora de tal maneira que as
Matinas que devem ser celebradas quando começa a clarear, venham
em seguida ao ofício das Vigílias, depois de brevíssimo
intervalo, durante o qual os irmãos saem para as necessidades
naturais.
CAPÍTULO 9 - Quantos salmos devem ser ditos nas Horas noturnas
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[1] No tempo
de inverno acima citado, diga-se em primeiro lugar o versículo,
repetido três vezes: "Senhor, abrireis os meus lábios e minha
boca anunciará vosso louvor", [2] ao qual deve ser acrescentado
o salmo terceiro e o "Glória". [3] Depois desse, o salmo
nonagésimo quarto, com antífona, ou então cantado. [4] Segue-se
o Ambrosiano e depois seis salmos com antífonas. [5] Recitados
esses e dito o versículo, o Abade dê a bênção; depois,
achando-se todos sentados nos bancos sejam lidas pelos irmãos,
um de cada vez, três lições do livro que está sobre a estante.
Entre elas cantem-se três responsórios. [6] Dois destes
responsórios são ditos sem "Glória", porém, depois da terceira
lição, quem está cantando diga o "Glória". [7] Quando esse
começar, levantem-se logo todos de seus assentos em honra e
reverência à Santíssima Trindade. [8] Leiam-se, nas Vigílias, os
livros de autoria divina, tanto do Antigo como do Novo
Testamento, e também as exposições que sobre eles fizeram os
Padres católicos conhecidos e ortodoxos. [9] A essas três lições
com seus responsórios, sigam-se os seis salmos restantes
cantados com "Aleluia". [10] Vêm, em seguida, a lição do
Apóstolo, que deve ser recitada de cor, o versículo e a súplica
da litania, isto é, "Kyrie eleison", [11] e assim terminem as
Vigílias noturnas.
CAPÍTULO 10 - Como será celebrado no verão o louvor divino
[ voltar ]
[1] De Páscoa
até primeiro de novembro, mantenha-se, quanto à salmodia, a
mesma medida acima determinada; [2] as lições do livro, porém,
por causa da brevidade das noites, não são lidas; em lugar
dessas três lições, seja recitada de memória uma do Antigo
Testamento, seguida de responsório breve, [3] e cumpram-se todas
as outras coisas como ficou dito acima, isto é: que nunca se
digam nas Vigílias noturnas, menos de doze salmos além do
terceiro e do nonagésimo quarto.
CAPÍTULO 11 - Como serão celebradas as Vigílias aos domingos
[ voltar ]
[1] Aos
domingos, levante-se mais cedo para as Vigílias, [2] nas quais
se mantenha a mesma medida já referida, isto é: modulados,
conforme dispusemos acima, seis salmos e o versículo, e estando
todos convenientemente e pela ordem assentados nos bancos,
leiam-se no livro, como já mencionamos, quatro lições com seus
responsórios; [3] só o quarto responsório é dito por quem está
cantando o "Gloria", ao começo do qual se levantem todos com
reverência. [4] A essas lições sigam-se, por ordem, outros seis
salmos com antífonas, como os anteriores, e o versículo. [5]
Terminados esses, voltam-se a ler outras quatro lições com seus
responsórios, na mesma ordem que acima. [6] Em seguida, digam-se
três cânticos dos Profetas que o Abade determinar, os quais
sejam salmodiados com "Aleluia". [7] Dito também o versículo,
sejam lidas com a bênção do Abade outras quatro lições do Novo
Testamento, na mesma ordem que acima. [8] Depois do quarto
responsório o abade entoa o hino "Te Deum laudamus". [9] Uma vez
terminado, leia o Abade o Evangelho, permanecendo todos de pé
com reverência e temor. [10] Quando essa leitura terminar,
respondam todos: "Amém"; e o abade prossegue logo com o hino "Te
decet laus", e, dada a bênção, comecem as Matinas. [11] Essa
disposição das Vigílias para o domingo deve ser mantida, como
está, em todo tempo, tanto no verão quanto no inverno, [12] a
não ser que, por acaso, e que tal não aconteça, os monges se
levantem mais tarde e se tenha de abreviar algo das lições ou
dos responsórios. [13] Haja, porém, todo o cuidado para que isso
não venha a suceder; se, porém, acontecer, satisfaça dignamente
a Deus no oratório, aquele por cuja culpa veio esse fato a
verificar-se.
CAPÍTULO 12 - Como será realizada a solenidade das matinas
[ voltar ]
[1] Nas
Matinas de domingo, [2] diga-se em primeiro lugar o salmo
sexagésimo sexto, sem antífona, em tom direto. Diga-se, depois,
o quinquagésimo, com "Aleluia". [3] Em seguida, o centésimo
décimo sétimo e o sexagésimo segundo; [4] seguem-se então os "Benedicite",
e os "Laudate", uma lição do Apocalipse de cor, o responsório, o
ambrosiano, o versículo, o cântico do Evangelho, a litania, e
está terminado.
CAPÍTULO 13 - Como serão realizadas as matinas em dia comum
[ voltar ]
[1] Nos dias
comuns, porém, a solenidade das Matinas seja assim realizada,
[2] a saber: recita-se o salmo sexagésimo sexto sem antífona, um
tanto lentamente, como no domingo, de modo que todos cheguem
para o quinquagésimo, o qual deve ser recitado com antífona. [3]
Depois desse, recitem-se outros dois salmos, segundo o costume,
isto é, [4] segunda-feira, o quinto e o trigésimo quinto; [5]
terça-feira, o quadragésimo segundo e o quinquagésimo sexto; [6]
quarta-feira, o sexagésimo terceiro e o sexagésimo quarto; [7]
quinta-feira, o octogésimo sétimo e o octogésimo nono; [8]
sexta-feira, o septuagésimo quinto e o nonagésimo primeiro; [9]
sábado, o centésimo quadragésimo segundo e o cântico do
Deuteronômio, que deve ser dividido em dois "Gloria". [10] Nos
outros dias, diga-se um cântico dos Profetas, um para cada dia,
como canta a Igreja Romana. [11] A esses seguem-se os "Laudate",
depois uma lição do Apóstolo recitada de memória, o responsório,
o ambrosiano, o versículo, o cântico do Evangelho, a litania, e
está completo.
[12] Não
termine, de forma alguma, o ofício da manhã ou da tarde sem que
o superior diga, em último lugar, por inteiro e de modo que
todos ouçam, a oração dominical, por causa dos espinhos de
escândalos que costumam surgir, [13] de maneira que,
interpelados os irmãos pela promessa da própria oração que estão
rezando: "perdoai-nos assim como nós perdoamos", se preservem de
tais vícios. [14] Nos demais ofícios diga-se a última parte
dessa oração, de modo a ser respondido por todos: "Mas
livrai-nos do mal".
CAPÍTULO 14 - Como serão celebradas as Vigílias nos natalícios
dos Santos
[ voltar ]
[1] Nas festas
dos Santos e em todas as solenidades, proceda-se do mesmo modo
que indicamos para o domingo [2] exceto que, quanto aos salmos,
antífonas e lições, sejam ditos os que pertencem à própria
festa; mantenha-se, porém, a mesma disposição acima descrita.
CAPÍTULO 15 - Em quais épocas será dito o Aleluia
[ voltar ]
[1] Da Santa
Páscoa até Pentecostes, diga-se sem interrupção o "Aleluia"
tanto nos salmos como nos responsórios. [2] De Pentecostes até o
início da Quaresma, diga-se todas as noites, mas somente com os
seis últimos salmos dos noturnos . [3] Em todo domingo, fora da
Quaresma, digam-se com "Aleluia" os Cânticos, as Matinas, Prima,
Terça, Sexta e Noa; entretanto, as Vésperas sejam ditas com
antífona . [4] Quanto aos responsórios, nunca são ditos com
"Aleluia", a não ser de Páscoa até Pentecostes.
CAPÍTULO 16 - Como serão celebrados os ofícios durante o dia
[ voltar ]
[1] Diz o
Profeta: "Louvei-vos sete vezes por dia". [2] Assim, também nós
realizaremos esse sagrado número, se, por ocasião das Matinas,
Prima, Terça, Sexta, Noa, Vésperas e Completas, cumprirmos os
deveres da nossa servidão; [3] porque foi destas Horas do dia
que ele disse: "Louvei-vos sete vezes por dia". [4] Quanto às
Vigílias noturnas, diz da mesma forma o mesmo profeta:
"Levantava-me no meio da noite para louvar-vos". [5] Rendamos,
portanto, nessas horas, louvores ao nosso Criador "sobre os
juízos da sua justiça", isto é, nas Matinas, Prima, Terça,
Sexta, Noa, Vésperas e Completas; e à noite, levantemo-nos para
louvá-Lo.
CAPÍTULO 17 - Quantos salmos deverão ser cantados nessas mesmas
horas
[ voltar ]
[1] Já
dispusemos a Ordem da Salmodia, dos Noturnos e das Matinas;
vejamos agora a das Horas seguintes. [2] À Hora de Prima sejam
ditos: três salmos separadamente, não sob um só "Gloria", [3] e
o hino da mesma Hora, que virá depois do versículo " Ó Deus,
vinde em meu auxílio" e antes que sejam começados os salmos. [4]
Terminados os três salmos, recitem-se uma lição, o versículo,
"Kyrie eleison", e façam-se as orações finais. [5] Terça, Sexta,
e Noa sejam celebradas segundo a mesma ordem, isto é: versículo,
hinos de cada uma das Horas, três salmos, lição e versículo,
"Kyrie eleison" e as orações finais. [6] Se a comunidade for
grande, sejam os salmos cantados com antífona; se for pequena,
em tom direto. [7] A sinaxe vespertina consta de quatro salmos
com antífonas; [8] depois dos quais deve ser recitada uma lição;
em seguida o responsório, o ambrosiano, o versículo, o cântico
do Evangelho, a litania, a oração dominical e as orações finais.
[9] As Completas compreendem a recitação de três salmos, que
devem ser ditos em tom direto, sem antífona; [10] Depois deles,
o hino da mesma Hora, uma lição, o versículo, o "Kyrie eleison",
a bênção e as orações finais.
CAPÍTULO 18 - Em que ordem os mesmos salmos devem ser ditos
[ voltar ]
[1] Diga-se o
versículo: "Ó Deus, vinde em meu auxílio; apressai-vos, Senhor,
em socorrer-me", o Glória, e depois o Hino de cada uma das Horas
. [2] Em seguida, na hora de Prima do domingo, devem ser ditas
quatro divisões do salmo centésimo décimo oitavo; [3] nas demais
Horas, isto é, Terça, Sexta e Noa digam-se três divisões do
referido salmo centésimo décimo oitavo. [4] Na Prima da Segunda
feira, digam-se três salmos, a saber: o primeiro, o segundo e o
sexto. [5] E assim em cada dia, até o domingo, digam-se na
Prima, por ordem, três salmos até o décimo nono; de tal modo que
sejam divididos em dois o salmo nono e o décimo sétimo. [6] E
faça-se assim, para que sempre se comecem as Vigílias do domingo
pelo vigésimo.
[7] Na Terça,
Sexta e Noa da segunda-feira, digam-se as nove divisões que
restam do salmo centésimo décimo oitavo, três em cada Hora. [8]
Percorrido, portanto, o salmo centésimo décimo oitavo nos dois
dias - domingo e segunda-feira, [9] já na Terça, Sexta e Noa da
terça-feira, salmodiam-se três salmos de cada vez, do centésimo
décimo nono até o centésimo vigésimo sétimo, isto é, nove
salmos. [10] Repitam-se sempre esses salmos pelas mesmas Horas
até o domingo, conservando-se de maneira uniforme e todos os
dias a disposição dos hinos, bem assim como a das lições e
versículos; [11] e, assim sendo, comece-se sempre no domingo com
o centésimo décimo oitavo.
[12] As
Vésperas sejam cantadas diariamente pela modulação de quatro
salmos. [13] Esses salmos vão do centésimo nono até o centésimo
quadragésimo sétimo, [14] excetuados alguns que dentre esses
foram tirados para outras Horas, isto é, do centésimo décimo
sétimo ao centésimo vigésimo sétimo, mais o centésimo trigésimo
terceiro e o centésimo quadragésimo segundo; [15] todos os
demais devem ser ditos nas Vésperas. [16] Como, porém, ficam
faltando três salmos, devem ser divididos os mais longos dentre
os supracitados, isto é, o centésimo trigésimo oitavo, o
centésimo quadragésimo terceiro e o centésimo quadragésimo
quarto. [17] O centésimo décimo sexto, por ser pequeno, seja
unido ao centésimo décimo quinto. [18] Distribuída, pois, a
ordem dos salmos vespertinos, quanto ao restante - isto é, a
lição, o responsório, o hino, o versículo e o cântico -
proceda-se como determinamos acima. [19] Nas Completas,
repitam-se todos os dias os mesmos salmos: o quarto, o
nonagésimo e o centésimo trigésimo terceiro.
[20] Disposta
a ordem da salmodia diurna, distribuam-se igualmente todos os
salmos que restam, pelas sete Vigílias da noite, [21]
partindo-se, naturalmente, os que, dentre eles forem mais longos
e estabelecendo-se doze para cada noite.
[22]
Advertimos de modo especial que, se porventura essa distribuição
dos salmos não agradar a alguém, que ordene como achar melhor;
[23] mas, seja como for, atenda a que seja salmodiado cada
semana, integralmente, o saltério de cento e cinqüenta salmos e
que se comece sempre, de novo, nas Vigílias do domingo, [24]
porque os monges que, no decurso da semana, recitam menos do que
o saltério com os cânticos costumeiros revelam ser por demais
frouxo o serviço de sua devoção. [25] Pois lemos que os nossos
santos Pais realizavam, corajosamente, em um só dia isso que
oxalá nós indolentes, cumprimos no decorrer de toda uma semana.
CAPÍTULO 19 - Da
maneira de salmodiar
[ voltar ]
[1] Cremos
estar em toda parte a presença divina e que "os olho do Senhor
vêem em todo lugar os bons e os maus". [2] Creiamos nisso
principalmente e sem dúvida alguma, quando estamos presentes ao
Ofício Divino. [3] Lembremo-nos, pois, sempre, do que diz o
Profeta: "Servi ao Senhor no temor". [4] E também: "Salmodiai
sabiamente". [5] E ainda: "Cantar-vos-ei em face dos anjos". [6]
Consideremos, pois, de que maneira cumpre estar na presença da
Divindade e de seus anjos; [7] e tal seja a nossa presença na
salmodia, que nossa mente concorde com nossa voz.
CAPÍTULO 20 - Da
reverência na oração
[ voltar ]
[1] Se
queremos sugerir alguma coisa aos homens poderosos, não ousamos
fazê-lo a não ser com humildade e reverência; [2] quanto mais
não se deverá empregar toda a humildade e pureza de devoção para
suplicar ao Senhor Deus de todas as coisas? [3] E saibamos que
seremos ouvidos, não com o muito falar, mas com a pureza do
coração e a compunção das lágrimas. [4] Por isso, a oração deve
ser breve e pura, a não ser que, por ventura, venha a
prolongar-se por um afeto de inspiração da graça divina. [5] Em
comunidade, porém, que a oração seja bastante abreviada e, dado
o sinal pelo superior, levantem-se todos ao mesmo tempo.
CAPÍTULO 21 -
Dos decanos do mosteiro
[ voltar ]
[1] Se a
comunidade for numerosa, sejam escolhidos, dentre os seus
membros, irmãos de bom testemunho e de vida monástica santa, e
constituídos Decanos; [2] empreguem sua solicitude em tudo o que
diz respeito às suas decanias, conforme os mandamentos de Deus e
os preceitos do seu Abade. [3] Que os Decanos eleitos sejam tais
que possa o Abade, com segurança, repartir com eles o seu ônus ;
[4] e não sejam escolhidos pela ordem na comunidade, mas segundo
o mérito da vida e a doutrina da sabedoria. [5] Se algum dentre
os Decanos, acaso inchado por qualquer soberba, for julgado
merecedor de repreensão, seja repreendido uma, duas, até três
vezes; se não quiser emendar-se seja destituído [6] e ponha-se
em seu lugar outro que seja digno. [7] O mesmo determinamos a
respeito do Prior.
CAPÍTULO 22
- Como devem dormir os monges
[ voltar ]
[1] Durma cada
um em uma cama. [2] Tenham seus leitos de acordo com o modo de
viver monástico e conforme o abade distribuir. [3] Se for
possível, durmam todos num mesmo lugar; se, porém, o número não
o permitir, durmam aos grupos de dez ou vinte, em companhia de
monges mais velhos que sejam solícitos para com eles. [4] Esteja
acesa nesse recinto uma candeia sem interrupção, até o
amanhecer. [5] Durmam vestidos e cingidos com cintos ou cordas,
mas de forma que não tenham, enquanto dormem, as facas a seu
lado, a fim de que não venham elas a ferir, durante o sono, quem
está dormindo; [6] e de modo que estejam os monges sempre
prontos e, assim, dado o sinal, levantando-se sem demora,
apressem-se mutuamente e antecipem-se no Ofício Divino, porém
com toda gravidade e modéstia. [7] Que os irmãos mais jovens não
tenham leitos juntos, mas intercalados com os dos mais velhos.
[8] Levantando-se para o Ofício Divino chamem-se mutuamente,
para que não tenham desculpas os sonolentos; façam-no, porém,
com moderação.
CAPÍTULO 23 -
Da excomunhão pelas faltas
[ voltar ]
[1] Se houver
algum irmão teimoso ou desobediente, soberbo ou murmurador, ou
em algum modo contrário à santa Regra, e desprezador dos
preceitos dos seus superiores, [2] seja ele admoestado, conforme
o preceito de nosso Senhor, a primeira e a segunda vez, em
particular pelos seus superiores. [3] Se não se emendar, seja
repreendido publicamente, diante de todos. [4] Se porém, nem
assim se corrigir sofra a excomunhão, caso possa compreender o
que seja essa pena. [5] Se, entretanto, está de ânimo
endurecido, seja submetido a castigo corporal.
CAPÍTULO 24 - Qual deve ser o modo de proceder-se à excomunhão
[ voltar ]
[1] A medida
tanto da excomunhão como da disciplina, deve regular-se segundo
a espécie da falta, [2] e esta espécie das faltas está sob
critério do julgamento do abade. [3] Se algum irmão incorrer em
faltas mais leves, seja privado da participação à mesa. [4] Será
este o proceder de quem está privado da mesa: não entoe salmo,
nem antífona no oratório, nem recite lição até que tenha sido
dada a devida satisfação. [5] Receba sozinho a sua refeição
depois da refeição dos irmãos; [6] de modo que, por exemplo, se
os irmãos vão tomar a refeição à hora sexta, aquele irmão o fará
à hora nona; se os irmãos à nona, ele à hora de Vésperas, [7]
até que tenha obtido o perdão por conveniente satisfação.
CAPÍTULO 25 - Das
faltas mais graves
[ voltar ]
[1] Que seja
suspenso da mesa e também do oratório o irmão culpado de faltas
mais graves. [2] Que nenhum irmão se junte a ele em nenhuma
espécie de relação, nem para lhe falar. [3] Esteja sozinho no
trabalho que lhe for determinado, permanecendo no luto da
penitência, ciente daquela terrível sentença do Apóstolo que
diz: [4] "Este homem foi assim entregue à morte da carne para
que seu espírito se salve no dia do Senhor". [5] Faça a sós a
sua refeição na medida e na hora que o Abade julgar
convenientes, [6] não seja abençoado por ninguém que por ele
passe, nem também a comida que lhe é dada.
CAPÍTULO 26 - Dos que sem autorização se juntam aos excomungados
[ voltar ]
[1] Se algum
irmão ousar juntar-se, de qualquer modo, ao irmão excomungado
sem ordem do Abade, ou de falar com ele ou mandar-lhe um recado,
[2] aplique-se-lhe o mesmo castigo de excomunhão.
CAPÍTULO 27 - Como deve o Abade ser solícito para com os
excomungados
[ voltar ]
[1] Cuide o
Abade com toda a solicitude dos irmãos que caírem em faltas,
porque "não é para os sadios que o médico é necessário, mas para
os que estão doentes". [2] Por isso, como sábio médico, deve
usar de todos os meios, enviar "simpectas", isto é, irmãos mais
velhos e sábios [3] que, em particular, consolem o irmão
flutuante e o induzam a uma humilde satisfação, o consolem "para
que não seja absorvido por demasiada tristeza", [4] mas, como
diz ainda o Apóstolo, "confirme-se a caridade para com ele", e
rezem todos por ele.
[5] O Abade
deve, pois, empregar extraordinária solicitude e deve
empenhar-se com toda sagacidade e indústria, para que não perca
alguma das ovelhas a si confiadas. [6] Reconhecerá, pois, ter
recebido a cura das almas enfermas, e não a tirania sobre as
sãs; [7] tema a ameaça do profeta, através da qual Deus nos diz:
"o que víeis gordo assumíeis e o que era fraco lançáveis fora".
[8] Imite o pio exemplo do bom pastor que, deixando as noventa e
nove ovelhas nos montes, saiu a procurar uma única ovelha que
desgarrara, [9] de cuja fraqueza a tal ponto se compadeceu, que
se dignou colocá-la em seus sagrados ombros e assim trazê-la de
novo ao aprisco.
CAPÍTULO 28 - Daqueles que muitas vezes corrigidos não quiserem
emendar-se
[ voltar ]
[1] Se algum
irmão freqüentes vezes corrigido por qualquer culpa não se
emendar, nem mesmo depois de excomungado, que incida sobre ele
uma correção mais severa, isto é, use-se o castigo das varas.
[2] Se nem assim se corrigir, ou se por acaso, o que não
aconteça, exaltado pela soberba, quiser mesmo defender suas
ações, faça então o Abade como sábio médico: [3] se aplicou as
fomentações, os ungüentos das exortações, os medicamentos das
divinas Escrituras e enfim a cauterização da excomunhão e das
pancadas de vara [4] e vir que nada obtém com sua indústria,
aplique então o que é maior: a sua oração e a de todos os irmãos
por ele, [5] para que o Senhor, que tudo pode, opere a salvação
do irmão enfermo. [6] Se nem dessa maneira se curar, use já
agora o Abade o ferro da amputação, como diz o Apóstolo: "Tirai
o mal do meio de vós" e também: [7] "Se o infiel se vai, que se
vá", [8] a fim de que uma ovelha enferma não contagie todo o
rebanho.
CAPÍTULO 29 - Se devem ser novamente recebidos os irmãos que
saem do mosteiro
[ voltar ]
[1] O irmão
que sai do mosteiro por culpa própria, se quiser voltar,
prometa, antes, uma completa emenda do vício que foi a causa de
sua saída, [2] e então seja recebido no último lugar, para que
assim se prove a sua humildade. [3] Se de novo sair, seja assim
recebido até três vezes, já sabendo que depois lhe será negado
todo caminho de volta.
CAPÍTULO 30 - De que maneira serão corrigidos os de menor idade
[ voltar ]
[1] Cada idade
e cada inteligência deve ser tratada segundo medidas próprias.
[2] Por isso, os meninos e adolescentes ou os que não podem
compreender que espécie de pena é, na verdade, a excomunhão, [3]
quando cometem alguma falta, sejam afligidos com muitos jejuns
ou castigados com ásperas varas, para que se curem.
CAPÍTULO 31 - Como deve ser o Celeireiro do mosteiro
[ voltar ]
[1] Seja
escolhido para Celeireiro do mosteiro, dentre os membros da
comunidade, um irmão sábio, maduro de caráter, sóbrio, que não
coma muito, não seja orgulhoso, nem turbulento, nem injuriador,
nem tardo, nem pródigo, [2] mas temente a Deus; que seja como um
pai para toda a comunidade. [3] Tome conta de tudo; [4] nada
faça sem ordem do Abade. [5] Cumpra o que for ordenado. [6] Não
entristeça seus irmãos. [7] Se algum irmão, por acaso, lhe pedir
alguma coisa desarrazoadamente, não o entristeça desprezando-o,
mas negue, razoavelmente, com humildade, ao que pede mal. [8]
Guarde a sua alma, lembrando-se sempre daquela palavra do
Apóstolo: "Quem tiver administrado bem, terá adquirido para si
um bom lugar". [9] Cuide com toda solicitude dos enfermos, das
crianças, dos hóspedes e dos pobres, sabendo, sem dúvida alguma,
que deverá prestar contas de todos esses, no dia do juízo. [10]
Veja todos os objetos do mosteiro e demais utensílios como vasos
sagrados do altar. [12] Nada negligencie. [12] Não se entregue à
avareza, nem seja pródigo e esbanjador dos bens do mosteiro; mas
faça tudo com medida e conforme a ordem do Abade.
[13] Tenha
antes de tudo humildade e não possuindo a coisa com que atender
a alguém, entregue-lhe como resposta uma boa palavra, [14]
conforme o que está escrito: "A boa palavra está acima da melhor
dádiva". [15] Mantenha sob seus cuidados tudo o que o Abade
determinar, não presuma, porém, a respeito do que lhe tiver
proibido. [16] Ofereça aos irmãos a parte estabelecida para cada
um, sem arrogância ou demora, a fim de que não se escandalizem,
lembrado da palavra divina sobre o que deve merecer "quem
escandalizar um destes pequeninos". [17] Se a comunidade for
numerosa, sejam-lhe dados auxiliares com a ajuda dos quais
cumpra, com o espírito em paz, o ofício que lhe foi confiado.
[18] Às horas convenientes seja dado o que deve ser dado e
pedido o que deve ser pedido, [19] para que ninguém se perturbe
nem se entristeça na casa de Deus.
CAPÍTULO 32 - Das ferramentas e objetos do mosteiro
[ voltar ]
[1] Quanto aos
utensílios do mosteiro em ferramentas ou vestuário, ou quaisquer
outras coisas, procure o Abade irmãos de cuja vida e costumes
esteja seguro [2] e, como julgar útil, consigne-lhes os
respectivos objetos para tomar conta e recolher. [3] Mantenha o
abade um inventário desses objetos, para que saiba o que dá e o
que recebe, à medida que os irmãos se sucedem no desempenho do
que lhes for incumbido. [4] Se algum deixar as coisas do
mosteiro sujas ou as tratar negligentemente, seja repreendido;
[5] se não se emendar, seja submetido à disciplina regular.
CAPÍTULO 33 - Se os monges devem possuir alguma coisa de próprio
[ voltar ]
[1]
Especialmente este vício deve ser cortado do mosteiro pela raiz;
[2] ninguém ouse dar ou receber alguma coisa sem ordem do Abade,
[3] nem ter nada de próprio, nada absolutamente, nem livro, nem
tabuinhas, nem estilete, absolutamente nada, [4] já que não lhes
é lícito ter a seu arbítrio nem o próprio corpo nem a vontade;
[5] porém, todas as coisas necessárias devem esperar do pai do
mosteiro, e não seja lícito a ninguém possuir o que o Abade não
tiver dado ou permitido. [6] Seja tudo comum a todos, como está
escrito, nem diga nem tenha alguém a presunção de achar que
alguma coisa lhe pertence. [7] Se for surpreendido alguém a
deleitar-se com este péssimo vício, seja admoestado primeira e
segunda vez, [8] se não se emendar, seja submetido à correção.
CAPÍTULO 34 - Se todos devem receber igualmente o necessário
[ voltar ]
[1] Como está
escrito, repartia-se para cada um conforme lhe era necessário.
[2] Não dizemos, com isso, que deva haver acepção de pessoas, o
que não aconteça, mas sim consideração pelas fraquezas, [3] de
forma que quem precisar de menos dê graças a Deus e não se
entristeça por isso; [4] quem precisar de mais, humilhe-se em
sua fraqueza e não se orgulhe por causa da misericórdia que
obteve. [5] E, assim, todos os membros da comunidade estarão em
paz. [6] Antes de tudo, que não surja o mal da murmuração em
qualquer palavra ou atitude, seja qual for a causa. [7] Se
alguém for assim surpreendido, seja submetido a castigo mais
severo.
CAPÍTULO 35 -
Dos semanários da cozinha
[ voltar ]
[1] Que os
irmãos se sirvam mutuamente e ninguém seja dispensado do ofício
da cozinha, a não ser no caso de doença ou se se tratar de
alguém ocupado em assunto de grande utilidade; [2] pois por esse
meio se adquire maior recompensa e caridade. [3] Para os fracos,
arranjem-se auxiliares, a fim de que não o façam com tristeza;
[4] ainda conforme o estado da comunidade e a situação do lugar,
que todos tenham auxiliares. [5] Se a comunidade for numerosa,
seja o Celeireiro dispensado da cozinha, e também, como
dissemos, os que estiverem ocupados em assuntos de maior
utilidade. [6] Os demais sirvam-se mutuamente na caridade. [7] O
que vai terminar sua semana faça, no sábado, a limpeza; [8]
lavem as toalhas com que os irmãos enxugam as mãos e os pés; [9]
ambos, tanto o que sai como o que entra, lavem os pés de todos.
[10] Devolva aquele ao Celeireiro os objetos do seu ofício,
limpos e perfeitos; [11] entregue-os outra vez o Celeireiro ao
que entra, para que saiba o que dá e o que recebe.
[12] Os
semanários recebam, uma hora antes da refeição, além da porção
estabelecida, um pouco de pão e algo para beber, [13] a fim de
que, na hora da refeição, sirvam a seus irmãos sem murmurar e
sem grande cansaço; [14] no entanto, nos dias solenes, esperem
até depois da Missa. [15] No domingo, logo que acabem as
Matinas, os semanários que entram e os que saem prostrem-se no
oratório, aos pés de todos, pedindo que orem por eles. [16]
Aquele que termina a semana diga o seguinte versículo: "Bendito
é o Senhor Deus que me ajudou e consolou". [17] Dito isso três
vezes e recebida a bênção, sai; prossiga o que começa a semana,
dizendo: "Ó Deus vinde em meu auxílio; Senhor, apressai-vos em
socorrer-me". [18] Também isso seja repetido três vezes por
todos e, recebida a bênção, entre no seu ofício.
CAPÍTULO 36 - Dos
irmãos enfermos
[ voltar ]
[1] Antes de
tudo e acima de tudo deve tratar-se dos enfermos de modo que se
lhes sirva como verdadeiramente ao Cristo, [2] pois Ele disse:
"Fui enfermo e visitastes-me" [3] e "Aquilo que fizestes a um
destes pequeninos, a mim o fizestes". [4] Mas que os próprios
enfermos considerem que são servidos em honra a Deus e não
entristeçam com sua superfluidade aos irmãos que lhes servem.
[5] No entanto, devem os doentes ser levados pacientemente,
porque por meio deles se adquire recompensa mais copiosa. [6]
Portanto, tenha o abade o máximo cuidado para que não sofram
nenhuma negligência. [7] Haja uma cela destinada especialmente a
estes irmãos enfermos, e um servo temente a Deus, diligente e
solícito. [8] O uso dos banhos seja oferecido aos doentes sempre
que convém; mas aos sãos, e sobretudo aos jovens, seja raramente
concedido. [9] Também a alimentação de carnes seja concedida aos
enfermos por demais fracos, para que se restabeleçam, mas logo
que tiverem melhorado abstenham-se todos de carnes, como de
costume. [10] Que tenha, pois, o Abade o máximo cuidado em que
os enfermos não sejam negligenciados nem pelos Celeireiros nem
pelos que lhes servem, pois sobre ele recai qualquer falta que
tenha sido cometida pelos discípulos.
CAPÍTULO 37 -
Dos velhos e das crianças
[ voltar ]
[1] Ainda que
a própria natureza humana seja levada à misericórdia para com
estas idades, velhos e crianças, no entanto que a autoridade da
Regra olhe também por eles. [2] Considere-se sempre a fraqueza
que lhes é própria, e não se mantenha para com eles o rigor da
Regra no que diz respeito aos alimentos; [3] haja sim, em
relação a eles, uma pia consideração e tenham antecipadas as
horas regulares.
CAPÍTULO 38 - Do
leitor semanário
[ voltar ]
[1] Às mesas
dos irmãos não deve faltar a leitura; não deve ler aí quem quer
que, por acaso, se apodere do livro, mas sim o que vai ler
durante toda a semana, a começar do domingo. [2] Depois da Missa
e da Comunhão, peça a todos que orem por ele para que Deus
afaste dele o espírito de soberba. [3] No oratório, recitem
todos, por três vezes, o seguinte versículo, iniciando-o o
próprio leitor: "Abri, Senhor, os meus lábios, e minha boca
anunciará vosso louvor"; [4] e tendo assim recebido a bênção,
entre a ler. [5] Faça-se o máximo silêncio, de modo que não se
ouça nenhum cochicho ou voz, a não ser a do que está lendo. [6]
Quanto às coisas que são necessárias aos que estão comendo e
bebendo, sirvam-se mutuamente os irmãos, de tal modo que ninguém
precise pedir coisa alguma. [7] Se porém se precisar de qualquer
coisa, seja antes pedida por algum som ou sinal do que, por
palavra. [8] Nem ouse alguém fazer alguma pergunta sobre a
leitura, ou outro assunto qualquer, para que se não dê ocasião,
[9] a não ser que o superior, porventura, queira dizer,
brevemente, alguma coisa, para edificação. [10] O leitor
semanário, antes de começar a ler, recebe o "misto" por causa da
Comunhão e para que não aconteça ser-lhe pesado suportar o
jejum; [11] faça, porém, depois, a refeição com os semanários da
cozinha e os serventes. [12] Não leiam nem cantem os irmãos
segundo a ordem da comunidade, mas façam-no aqueles que edificam
os ouvintes.
CAPÍTULO 39 - Da
medida da comida
[ voltar ]
[1] Cremos que
são suficientes para a refeição cotidiana, quer seja esta à
sexta ou à nona hora, em todas as mesas, dois pratos de cozidos,
por causa das fraquezas de muitos, [2] a fim de que aquele que
não puder, por acaso, comer de um prato, coma do outro. [3]
Portanto dois pratos de cozidos bastem a todos os irmãos; e se
houver frutas ou legumes frescos, sejam acrescentados em
terceiro lugar. [4] Seja suficiente uma libra de pão bem pesada,
para o dia todo, quer haja uma só refeição, quer haja jantar e
ceia. [5] Se houver ceia, seja guardada pelo Celeireiro a terça
parte da libra e entregue aos que vão cear. [6] Mas, se por
acaso tiverem feito um trabalho maior, estará ao critério e em
poder do Abade acrescentar, se convier, alguma coisa, [7]
afastados antes de mais nada excessos de comida, e de modo que
nunca sobrevenha ao monge a indigestão, [8] porque nada é tão
contrário a tudo o que é cristão como os excessos na comida, [9]
conforme diz Nosso Senhor: "Cuidai que os vossos corações não se
tornem pesados pela gula". [10] Aos meninos de pouca idade não
se sirva a mesma quantidade, mas sim menos que aos maiores,
guardada em tudo a sobriedade. [11] Abstenham-se todos
completamente de carnes de quadrúpedes, exceto os doentes
demasiadamente fracos.
CAPÍTULO 40 - Da
medida da bebida
[ voltar ]
[1] Cada um
recebe de Deus um dom particular, este de um modo, aquele de
outro; [2] por isso, é com algum escrúpulo que estabelecemos nós
a medida para a alimentação de outros; [3] no entanto, atendendo
à necessidade dos fracos, achamos ser suficiente, para cada um,
uma hêmina de vinho por dia. [4] Aqueles, porém, aos quais Deus
dá a força de tolerar a abstinência, saibam que receberão
recompensa especial.
[5] Se a
necessidade do lugar, o trabalho ou o rigor do verão exigir
mais, fique ao arbítrio do superior, considerando em tudo que
não sobrevenha saciedade ou embriaguez. [6] Ainda que leiamos
não ser absolutamente próprio dos monges fazer uso do vinho,
como em nossos tempos disso não se podem persuadir os monges, ao
menos convenhamos em que não bebamos até a saciedade, mas
parcamente, [7] porque "o vinho faz apostatar mesmo os sábios".
[8] Onde, porém, a necessidade do lugar exigir que nem a
referida medida se possa encontrar, mas muito menos ou
absolutamente nada, bendigam a Deus os que ali vivem e não
murmurem: [9] antes de tudo exortamo-los a que vivam sem
murmurações.
CAPÍTULO 41 - A que horas convém fazer as refeições
[ voltar ]
[1] Da Santa
Páscoa até Pentecostes, façam os irmãos a refeição à hora sexta
e ceiem à tarde. [2] A partir de Pentecostes, entretanto, por
todo o verão, se os monges não têm os trabalhos dos campos ou
não os perturba o excesso do verão, jejuem quarta e sexta-feira
até a hora nona; [3] nos demais dias jantem à hora sexta. [4] Se
tiverem trabalho nos campos ou se o rigor do verão for
excessivo, o jantar deve ser mantido à hora sexta: ao Abade
caiba tomar a providência. [5] E, assim, que tempere e disponha
tudo, de modo que as almas se salvem e que façam os irmãos, sem
justa murmuração, o que têm de fazer. [6] De 14 de setembro até
o início da Quaresma façam a refeição sempre à hora nona. [7]
Durante a Quaresma, entretanto, até a Páscoa façam-na à hora de
Vésperas. [8] Sejam essas celebradas de tal modo, que os irmãos
não precisem, à refeição, da luz de uma lâmpada, mas que tudo
esteja terminado com a luz do dia. [9] E mesmo em todas as
épocas esteja tanto a hora da Ceia como a do jantar de tal modo
disposta, que tudo se faça sob a luz do dia.
CAPÍTULO 42 - Que ninguém fale depois das Completas
[ voltar ]
[1] Os monges
devem, em todo tempo, esforçar-se por guardar o silêncio, mas
principalmente nas horas da noite. [2] Por isso, em qualquer
época do ano, seja de jejum, seja a época em que há jantar; [3]
se for época em que há jantar, logo que se levantarem da
refeição, sentem-se todos juntos e leia um deles as Colações ou
as "Vidas dos Pais", ou mesmo outra coisa que edifique os
ouvintes; [4] não, porém, o Heptateuco ou o livro dos Reis,
porque não seria útil, às inteligências fracas, ouvir essas
partes da Escritura, nesta hora; sejam lidas, porém, em outras
horas. [5] Se, entretanto, for dia de jejum, recitadas as
Vésperas, depois de pequeno intervalo, dirijam-se logo para a
leitura das Colações, conforme dissemos; [6] e, lidas quatro ou
cinco folhas ou quanto a hora permitir, [7] reúnam-se todos os
que vão chegando no decorrer da leitura, isto no caso de alguém
ter ficado ocupado em ofício que lhe fora confiado. [8] Estando,
pois, todos juntos, recitem as Completas; saindo das Completas,
não haja mais licença para ninguém falar o que quer que seja.
[9] Se alguém for encontrado transgredindo esta regra do
silêncio, seja submetido a severo castigo; [10] exceto se
sobrevier alguma necessidade da parte dos hóspedes ou se, por
acaso, o Abade ordenar alguma coisa a alguém. [11] Mas mesmo
isso seja feito com suma gravidade e honestíssima moderação.
CAPÍTULO 43 - Dos que chegam tarde ao Ofício Divino ou à mesa
[ voltar ]
[1] Na hora do
Ofício Divino, logo que for ouvido o sinal, deixando tudo que
estiver nas mãos, corra-se com toda a pressa, [2] mas com
gravidade, para que a escurrilidade não encontre incentivo. [3]
Portanto nada se anteponha ao Ofício Divino.
[4] Se alguém
chegar às Vigílias noturnas depois do "Glória" do salmo
nonagésimo quarto, que, por isso, queremos que seja dito de modo
muito prolongado e vagarosamente, não fique no lugar de sua
ordem no coro, [5] mas no último de todos ou em lugar à parte
determinado pelo Abade para tais negligentes, a fim de que sejam
vistos por ele e por todos; [6] até que, terminado o Ofício
Divino, faça penitência por pública satisfação. [7] Se achamos
que devem ficar no último lugar ou em lugar separado, é para
que, vistos por todos, ao menos, pela própria vergonha, se
emendem. [8] Pois se permanecessem fora do oratório, haveria
talvez algum que ou se acomodaria novamente e dormiria, ou então
se assentaria do lado de fora, ou se entregaria a conversas e
daria ocasião ao maligno; [9] entrem, pois, no recinto para que
nem tudo percam e daí por diante, se emendem. [10] Nas Horas
diurnas, o que ainda não tiver chegado ao Ofício Divino depois
do versículo e do "Glória" do primeiro salmo que se diz depois
do referido versículo, fique no último lugar, conforme a lei que
estabelecemos acima: [11] nem presuma associar-se ao coro dos
que salmodiam, até que tenha feito satisfação, a não ser que o
Abade, pelo seu perdão, dê licença, [12] mas, ainda assim, que o
culpado satisfaça por essa falta.
[13] Quanto à
mesa, quem não tiver chegado antes do versículo, de modo que
todos digam o versículo e orem juntos e se sentem ao mesmo tempo
à mesa - [14] quem não tiver chegado a tempo, por negligência ou
culpa, seja castigado por este motivo até duas vezes; [15] se de
novo não se emendar, não lhe seja permitida a participação à
mesa comum, mas faça a refeição a sós, [16] separado do
consórcio de todos, sendo-lhe tirada a porção de vinho, até que
tenha feito satisfação, e se tenha emendado. [17] Seja tratado
da mesma forma quem não estiver presente ao versículo que se diz
depois da refeição. [18] E ninguém presuma servir-se de algum
alimento ou bebida antes ou depois da hora estabelecida. [19]
Mas quanto àquele que não quis aceitar alguma coisa que lhe
tenha sido oferecida pelo superior, na hora em que desejar
aquilo que antes recusou ou outra coisa qualquer, absolutamente
nada receba, até conveniente emenda.
CAPÍTULO 44 - Como devem fazer satisfação os que tiverem sido
excomungados
[ voltar ]
[1] Aquele que
por culpas graves tiver sido excomungado do oratório e da mesa,
na hora em que no oratório se termina o Ofício Divino, permaneça
prostrado diante das portas do oratório, sem nada dizer, [2] com
o rosto em terra, estendido e inclinado aos pés de todos os que
saem do oratório. [3] E faça isso por tanto tempo, até julgar o
Abade que já está feita a satisfação. [4] Quando vier a ordem do
Abade, lance-se aos pés do mesmo Abade e depois aos de todos,
para que rezem por ele. [5] E, então, se o Abade mandar, seja
recebido no coro, no lugar de ordem que o Abade determinar; [6]
mas de tal modo que não presuma entoar, no oratório, salmo ou
lição ou o que quer que seja, sem que, de novo o Abade ordene.
[7] E em todas as Horas, ao terminar o Ofício Divino, prostre-se
por terra, no lugar onde estiver; [8] e assim dê satisfação até
que, de novo, lhe ordene o Abade que cesse daí por diante essa
satisfação. [9] Aqueles que, por culpas leves, são excomungados
apenas da mesa, façam satisfação no oratório, até a ordem do
Abade. [10] Façam-na até que o Abade os abençoe e diga: Basta.
CAPÍTULO
45 - Dos que erram no oratório
[ voltar ]
[1] Se alguém
errar quando recitar um salmo, responsório, antífona ou lição, e
se não se humilhar, ali mesmo, diante de todos por uma
satisfação, sofra castigo maior, [2] de vez que não quis
corrigir, pela humildade, a falta que cometeu por negligência.
[3] As crianças por tal falta recebam pancadas.
CAPÍTULO 46 - Daqueles que cometem faltas em quaisquer outras
coisas
[ voltar ]
[1] Se alguém,
ocupado em qualquer trabalho na cozinha, no celeiro, no
cumprimento de uma ordem, na padaria, na horta, enquanto
trabalha em algum ofício e em qualquer lugar que seja, cometer
alguma falta, [2] quebrar ou perder qualquer coisa, ou
exceder-se em qualquer lugar [3] e não vier imediatamente,
diante do abade e da comunidade, espontaneamente, satisfazer e
revelar o seu delito, [4] quando a culpa for conhecida por
outro, seja submetido a maior castigo. [5] Mas, se a causa de
seu pecado estiver escondida na alma, manifeste-o somente ao
abade ou aos conselheiros espirituais, [6] a alguém que saiba
curar as próprias chagas e as dos outros e não as revela e conta
em público.
CAPÍTULO 47 - Como deve ser dado o sinal para o Ofício Divino
[ voltar ]
[1] Esteja ao
cuidado do Abade o dever de anunciar a hora do Ofício Divino, de
dia e de noite; ele próprio dê o sinal ou então encarregue desse
cuidado a um irmão de tal modo solícito, que todas as coisas se
realizem nas horas competentes. [2] Entoem os salmos e
antífonas, depois do Abade, na respectiva ordem, aqueles aos
quais for ordenado. [3] Não presuma cantar ou ler, a não ser
quem pode desempenhar esse ofício de modo que se edifiquem os
ouvintes; [4] e seja feito com humildade, gravidade e tremor por
quem o Abade tiver mandado.
CAPÍTULO 48
- Do trabalho manual cotidiano
[ voltar ]
[1] A
ociosidade é inimiga da alma; por isso, em certas horas devem
ocupar-se os irmãos com o trabalho manual, e em outras horas com
a leitura espiritual. [2] Pela seguinte disposição, cremos poder
ordenar os tempos dessas duas ocupações: [3] isto é, que da
Páscoa até o dia 14 de setembro, saindo os irmãos pela manhã,
trabalhem da primeira hora até cerca da quarta, naquilo que for
necessário. [4] Da hora quarta até mais ou menos o princípio da
hora sexta, entreguem-se à leitura. [5] Depois da sexta,
levantando-se da mesa, repousem em seus leitos com todo o
silêncio; se acaso alguém quiser ler, leia para si, de modo que
não incomode a outro.
[6] Celebre-se
a Noa mais cedo, pelo fim da oitava hora, e de novo trabalhem no
que for preciso fazer até a tarde. [7] Se, porém, a necessidade
do lugar ou a pobreza exigirem que se ocupem, pessoalmente, em
colher os produtos da terra, não se entristeçam por isso, [8]
porque então são verdadeiros monges se vivem do trabalho de suas
mãos, como também os nossos Pais e os Apóstolos. [9] Tudo,
porém, se faça comedidamente por causa dos fracos.
[10] De 14 de
setembro até o início da Quaresma, entreguem-se à leitura até o
fim da hora segunda, [11] no fim da qual se celebre a Terça; e
até a hora nona trabalhem todos nos afazeres que lhes forem
designados. [12] Dado o primeiro sinal da nona hora, deixem
todos os seus respectivos trabalhos e preparem-se para quando
tocar o sinal. [13] Depois da refeição, entreguem-se às suas
leituras ou aos salmos.
[14] Nos dias
da Quaresma, porém, da manhã até o fim da hora terceira,
entreguem-se às suas leituras, e até o fim da décima hora
trabalhem no que lhes for designado. [15] Nesses dias de
Quaresma, recebam todos respectivamente livros da biblioteca e
leiam-nos pela ordem e por inteiro; [16] esses livros são
distribuídos no início da Quaresma. [17] Antes de tudo, porém,
designem-se um ou dois dos mais velhos, os quais circulem no
mosteiro nas horas em que os irmãos se entregam à leitura [18] e
verão se não há, por acaso, algum irmão tomado de acédia, que se
entrega ao ócio ou às conversas, e não está aplicado à leitura e
não somente é inútil a si próprio como também distrai os outros.
[19] Se um tal for encontrado, o que não aconteça, seja
castigado primeira e segunda vez: [21] se não se emendar, seja
submetido à correção regular de tal modo que os demais temam.
[21] Que um irmão não se junte a outro em horas inconvenientes.
[22] Também no
domingo, entreguem-se todos à leitura, menos aqueles que foram
designados para os diversos ofícios. [23] Se, entretanto, alguém
for tão negligente ou relaxado, que não queira ou não possa
meditar ou ler, determine-se-lhe um trabalho que possa fazer,
para que não fique à toa. [24] Aos irmãos enfermos ou delicados
designe-se um trabalho ou ofício, de tal sorte que não fiquem
ociosos nem sejam oprimidos ou afugentados pela violência do
trabalho; [25] a fraqueza desses deve ser levada em consideração
pelo Abade.
CAPÍTULO 49 -
Da observância da Quaresma
[ voltar ]
[1] Se bem que
a vida do monge deva ser, em todo tempo, uma observância de
Quaresma, [2] como, porém, esta força é de poucos, por isso
aconselhamos os monges a guardarem, com toda a pureza, a sua
vida nesses dias de Quaresma [3] e também a apagarem, nesses
santos dias, todas as negligências dos outros tempos. [4] E isso
será feito dignamente, se nos preservamos de todos os vícios e
nos entregamos à oração com lágrimas, à leitura, à compunção do
coração e à abstinência. [5] Acrescentemos, portanto, nesses
dias, alguma coisa ao encargo habitual da nossa servidão:
orações especiais, abstinência de comida e bebida; [6] e assim
ofereça cada um a Deus, de espontânea vontade, com a alegria do
Espírito Santo, alguma coisa além da medida estabelecida para
si; [7] isto é: subtraia ao seu corpo algo da comida, da bebida,
do sono, da conversa, da escurrilidade, e, na alegria do desejo
espiritual, espere a Santa Páscoa. [8] Entretanto, mesmo aquilo
que cada um oferece, sugira-o ao seu Abade, e seja realizado com
a oração e a vontade dele, [9] pois o que é feito sem a
permissão do pai espiritual será reputado como presunção e
vanglória e não como digno de recompensa. [10] Portanto, tudo
deve ser feito com a vontade do Abade.
CAPÍTULO 50 - Dos irmãos que trabalham longe do oratório ou
estão em viagem
[ voltar
:
[1] Os irmãos
que se encontram em um trabalho tão distante que não podem
acorrer na devida hora ao oratório, [2] e tendo o Abade
ponderado que assim é, [3] celebrem o Ofício Divino ali mesmo
onde trabalham, dobrando os joelhos, com temor divino. [4] Da
mesma forma, os que são mandados em viagem não deixem passar as
horas estabelecidas, mas celebrem-nas consigo mesmos, como podem
e não negligenciem cumprir com o encargo de sua servidão.
CAPÍTULO 51 - Dos irmãos que partem para não muito longe
[ voltar ]
[1] Não
presuma comer fora o irmão que é mandado a um afazer qualquer e
que é esperado no mosteiro no mesmo dia, ainda que seja
instantemente convidado por qualquer pessoa; [2] a não ser que,
porventura, o Abade lhe tenha dado ordem para isso. [3] Se
proceder de outra forma, seja excomungado.
CAPÍTULO 52 - Do
oratório do mosteiro
[ voltar ]
[1] Que o
oratório seja o que o nome indica, nem se faça ou se guarde ali
coisa alguma que lhe seja alheio. [2] Terminado o Ofício Divino,
saiam todos com sumo silêncio e tenha-se reverência para com
Deus; [3] de modo que se acaso um irmão quiser rezar em
particular, não seja impedido pela imoderação de outro. [4] Se
também outro, porventura, quiser rezar em silêncio, entre
simplesmente e ore, não com voz clamorosa, mas com lágrimas e
pureza de coração. [5] Quem não procede desta maneira, não
tenha, pois, permissão de, terminado o Ofício Divino, permanecer
no oratório, como foi dito, para que outro não venha a ser
perturbado.
CAPÍTULO 53 -
Da recepção dos hóspedes
[ voltar ]
[1] Todos os
hóspedes que chegarem ao mosteiro sejam recebidos como o Cristo,
pois Ele próprio irá dizer: "Fui hóspede e me recebestes". [2] E
se dispense a todos a devida honra, principalmente aos irmãos na
fé e aos peregrinos. [3] Logo que um hóspede for anunciado,
corra-lhe ao encontro o superior ou os irmãos, com toda a
solicitude da caridade; [4] primeiro, rezem em comum e assim se
associem na paz. [5] Não seja oferecido esse ósculo da paz sem
que, antes, tenha havido a oração, por causa das ilusões
diabólicas. [6] Nessa mesma saudação mostre-se toda a humildade.
Em todos os hóspedes que chegam e que saem, adore-se, [7] com a
cabeça inclinada ou com todo o corpo prostrado por terra, o
Cristo que é recebido na pessoa deles.
[8] Recebidos
os hóspedes, sejam conduzidos para a oração e depois sente-se
com eles o superior ou quem esse ordenar. [9] Leia-se diante do
hóspede a lei divina para que se edifique e depois disso
apresente-se-lhe um tratamento cheio de humanidade. [10] Seja o
jejum rompido pelo superior por causa dos hóspedes; a não ser
que se trate de um dos dias principais de jejum, que não se
possa violar; [11] mas os irmãos continuem a observar as normas
de jejum. [12] Que o Abade sirva a água para as mãos dos
hóspedes; [13] lave o Abade, bem assim como toda a comunidade,
os pés de todos os hóspedes; [14] depois de lavá-los, digam o
versículo: "Recebemos, Senhor, vossa misericórdia no meio de
vosso templo". [15] Mostre-se principalmente um cuidado solícito
na recepção dos pobres e peregrinos, porque sobretudo na pessoa
desses, Cristo é recebido; de resto o poder dos ricos, por si
só, já exige que se lhes prestem honras.
[16] Seja a
cozinha do Abade e dos hóspedes separada, de modo que os irmãos
não sejam incomodados, com a chegada, em horas incertas, dos
hóspedes, que nunca faltam no mosteiro. [17] Entrem todos os
anos para o trabalho dessa cozinha dois irmãos que desempenhem
bem esse ofício. [18] Sejam-lhes concedidos auxiliares quando
precisarem, para que sirvam sem murmuração; e do mesmo modo,
quando têm menos ocupação, deixem esse ofício, para trabalhar no
que lhes for ordenado. [19] E não só em relação a esses, mas em
todos os ofícios do mosteiro, seja este o critério: se
precisarem de auxiliares, [20] sejam-lhes concedidos; por outro
lado, quando estão livres, obedeçam ao que lhes for ordenado.
[21] Do mesmo modo, cuide do recinto reservado aos hóspedes um
irmão cuja alma seja possuída pelo temor de Deus: [22] haja ali
leitos suficientemente arrumados e seja a casa de Deus
sabiamente administrada por monges sábios. [23] De modo algum se
associe ou converse com os hóspedes quem não tiver recebido
permissão: [24] se encontrar ou vir algum deles, saúde-o
humildemente, como dissemos, e, pedida a bênção, afaste-se,
dizendo não lhe ser permitido conversar com os hóspedes.
CAPÍTULO 54 - Se o monge deve receber cartas ou qualquer outra
coisa
[ voltar ]
[1] Não seja
permitido de modo algum o monge receber ou enviar a seus pais ou
a qualquer pessoa ou um ao outro cartas, eulógias, ou quaisquer
pequenos presentes, sem permissão do abade. [2] E também, se
alguma coisa lhe for enviada pelos seus pais, não presuma
recebê-la sem que seja mostrada ao Abade. [3] Se ordenar que a
receba, esteja ainda no poder do Abade ordenar a quem a coisa
deve ser dada: [4] e não se entristeça o irmão a quem,
porventura, a coisa fora enviada, a fim de não dar ocasião ao
diabo. [5] Quem presumir proceder de outra maneira, seja
submetido à disciplina regular.
CAPÍTULO 55 - Do vestuário e do calçado dos irmãos
[ voltar ]
[1] Sejam
dadas vestes aos irmãos de acordo com as condições e temperatura
dos lugares em que habitam [2] porque, nas regiões frias, tem-se
necessidade de mais, e nas quentes, de menos. [3] Cabe ao Abade
a consideração disso. [4] Cremos, porém, que, para os lugares de
temperatura mediana, aos monges são suficientes uma cogula e uma
túnica para cada um: [5] a cogula felpuda no inverno, fina ou
mais usada no verão, [6] e um escapulário para o trabalho; para
os pés: meias e calçado. [7] Não se preocupem os monges com a
cor e qualidade de todas essas coisas, mas sejam as que se
puderem encontrar no lugar onde moram e as que puderem ser
adquiridas mais barato.
[8]
Providencie o Abade a respeito da medida, para que estas vestes
não fiquem curtas para quem as usa, mas de boa medida. [9] Os
que recebem novas entreguem sempre, ao mesmo tempo, as velhas,
que devem ser recolocadas na rouparia, para os pobres. [10]
Basta ao monge possuir duas túnicas e duas cogulas, para a noite
e para poder lavá-las; [11] o que houver a mais é supérfluo e
deve ser cortado. [12] E devolvam também os calçados e tudo o
que está velho, quando recebem os novos. [13] Os que são
mandados em viagem recebam calças, da rouparia, e devolvam-nas
lavadas, ao mesmo lugar, quando voltarem. [14] Suas cogulas e
túnicas sejam um pouco melhores que as de costume; recebam-nas
da rouparia e, voltando, restituam-nas.
[15] Como
peças que guarnecem o leito, bastam uma esteira, uma colcha, um
cobertor e um travesseiro. [16] Esses leitos devem ser
freqüentemente revistados pelo Abade para que não haja ali
coisas particulares. [17] E aquele com quem for encontrada
alguma coisa que não recebeu do Abade, seja submetido a
pesadíssimo castigo. [18] E para que este vício da propriedade
seja amputado pela raiz, seja dado pelo Abade tudo o que é
necessário, [19] isto é: cogula, túnica, meias, calçado, cinto,
faca, estilete, agulha, lenço, tabuinhas, para que se tire a
todos a desculpa de necessidade. [20] No entanto, considere
sempre o Abade aquela sentença dos Atos dos Apóstolos que diz:
"Era dado a cada um conforme precisava". [21] Assim, pois,
considere o Abade as fraquezas dos que precisam e não a má
vontade dos invejosos. [22] Mas, em todas as suas decisões,
pense na retribuição de Deus.
CAPÍTULO 56 - Da mesa
do Abade
[ voltar ]
[1] Tenha
sempre o Abade a sua mesa com os hóspedes e peregrinos. [1] Toda
vez, porém, que não há hóspedes, esteja em seu poder chamar
dentre os irmãos os que quiser; [3] mas um ou dois dos mais
velhos devem sempre ser deixados com os irmãos, por causa da
disciplina.
CAPÍTULO 57 -
Dos artistas do mosteiro
[ voltar ]
[1] Se há
artistas no mosteiro, que executem suas artes com toda a
humildade, se o Abade o permitir. [2] E se algum dentre eles se
ensoberbece em vista do conhecimento que tem de sua arte, pois
parece-lhe que com isso alguma vantagem traz ao mosteiro, [3]
que seja esse tal afastado de sua arte e não volte a ela a não
ser que, depois de se ter humilhado, o Abade, porventura, lhe
ordene de novo. [4] Se, dentre os trabalhos dos artistas, alguma
coisa deve ser vendida, cuidem aqueles por cujas mãos devem
passar essas coisas de não ousar cometer alguma fraude. [5]
Lembrem-se de Ananias e Safira, para que a mesma morte que esses
mereceram no corpo não venham a sofrer na alma [6] aqueles e
todos os que cometerem alguma fraude com os bens do mosteiro.
[7] Quanto aos próprios preços, que não se insinue o mal da
avareza, [8] mas venda-se sempre um pouco mais barato do que
pode ser vendido pelos seculares, [9] para que em tudo seja Deus
glorificado.
CAPÍTULO 58 - Da maneira de proceder à recepção dos irmãos
[ voltar ]
[1]
Apresentando-se alguém para a vida monástica, não se lhe conceda
fácil ingresso, [2] mas, como diz o Apóstolo: "Provai os
espíritos, se são de Deus". [3] Portanto, se aquele que vem,
perseverar batendo à porta e se depois de quatro ou cinco dias,
sendo-lhe feitas injúrias e dificuldade para entrar, parece
suportar pacientemente e persistir no seu pedido [4]
conceda-se-lhe o ingresso, e permaneça alguns dias na cela dos
hóspedes. [5] Fique, depois, na cela dos noviços, onde esses se
exercitam, comem e dormem. [6] Seja designado para eles um dos
mais velhos, que seja apto a obter o progresso das almas e que
se dedique a eles com todo o interesse. [7] Que haja solicitude
em ver se procura verdadeiramente a Deus, se é solícito para com
o Ofício Divino, a obediência e os opróbrios. [8] Sejam-lhe
dadas a conhecer, previamente, todas as coisas duras e ásperas
pelas quais se vai a Deus. [9] Se prometer a perseverança na sua
estabilidade, depois de decorridos dois meses, leia-se-lhe por
inteiro esta Regra, [10] e diga-se-lhe: Eis a lei sob a qual
queres militar: se podes observá-la entra; mas se não podes, sai
livremente. [11] Se ainda ficar, seja então conduzido à referida
cela dos noviços e seja de novo provado, em toda paciência. [12]
Passados seis meses, leia-se-lhe a Regra, a fim que saiba para o
que ingressa. [13] Se ainda permanece, depois de quatro meses,
releia-se-lhe novamente a mesma Regra. [14] E se, tendo
deliberado consigo mesmo, prometer guardar todas as coisas e
observar tudo quanto lhe for ordenado, seja então recebido na
comunidade, [15] sabendo estar estabelecido, pela lei da Regra,
que a partir daquele dia não lhe é mais lícito sair do mosteiro,
[16] nem retirar o pescoço ao jugo da Regra, a qual lhe foi
permitido recusar ou aceitar por tão demorada deliberação.
[17] No
oratório, diante de todos, prometa o que vai ser recebido a sua
estabilidade e conversação de seus costumes, e a obediência,
[18] diante de Deus e de seus Santos, a fim de que, se alguma
vez proceder de outro modo, saiba que será condenado por aquele
de quem zomba. [19] Desta sua promessa faça uma petição no nome
dos Santos cujas relíquias aí estão e do Abade presente. [20]
Escreva tal petição com sua própria mão; ou então, se não souber
escrever, escreva outro rogado por ele, e que o noviço faça um
sinal e a coloque com sua própria mão sobre o altar. [21] Quando
a tiver colocado, comece logo o seguinte versículo: "Suscipe me,
Domine, secundum eloquium tuum et vivam, et non confundas me ab
expectatione mea". [22] Responda toda a comunidade este
versículo, por três vezes, acrescentando: "Gloria Patri". [23]
Prosterna-se, então, o irmão noviço aos pés de cada um para que
orem por ele; e já daquele dia em diante seja considerado na
comunidade. [24] Se possui quaisquer bens, ou os distribua antes
aos pobres, ou, por solene doação, os confira ao mosteiro, nada
reservando para si de todas essas coisas: [25] pois sabe que,
deste dia em diante, nem sobre o próprio corpo terá poder. [26]
Portanto, seja logo no oratório despojado das roupas seculares
com que está vestido, e seja vestido com as roupas do mosteiro.
[27] As vestes que despiu sejam colocadas na rouparia, onde
devem ser conservadas, [28] para que, se algum dia, por
persuasão do demônio, consentir em sair do mosteiro - que isso
não aconteça! - seja expulso, despido das roupas do mosteiro.
[29] Não lhe seja entregue, porém, aquela sua petição que o
Abade tirou de cima do altar, mas fique guardada no mosteiro.
CAPÍTULO
59 - Dos filhos dos nobres ou dos pobres que são oferecidos
[ voltar ]
[1] Se
porventura, algum nobre oferece o seu filho a Deus no mosteiro,
se o jovem é de menor idade façam os seus pais a petição de que
falamos acima; [2] e envolvam na toalha do altar essa petição e
a mão do menino junto com a oblação, e assim o ofereçam.
[3] Prometam
na presente petição, sob juramento, que nunca, por si, nem por
pessoa interposta, lhe dão coisa alguma, em qualquer tempo, nem
lhe proporcionam ocasião de possuir; [4] ou então, se não
quiserem fazer isso e, como esmola, desejam oferecer ao mosteiro
alguma coisa para a própria recompensa, [5] façam a doação das
coisas que querem dar ao mosteiro, reservando o usufruto para
si, se assim o desejarem. [6] E dessa forma, todos os caminhos
estarão impedidos, de modo que no menino nenhuma esperança
permaneça, pela qual - que isso não aconteça - venha a ser
enganado e possa perecer; eis o que aprendemos por experiência.
[7] Da mesma forma procedam os mais pobres. [8] Aqueles porém,
que absolutamente nada possuem, façam simplesmente a petição e
ofereçam seu filho, com a sua oblação, diante de testemunhas.
CAPÍTULO 60 - Dos sacerdotes que, porventura, quiserem habitar
no mosteiro
[ voltar ]
[1] Se alguém
da ordem dos sacerdotes pedir para ser recebido no mosteiro, não
lhe seja concedido logo; [2] mas, se persistir absolutamente
nessa súplica, saiba que deverá observar toda a disciplina da
Regra [3] e não se lhe relaxará nada, de modo que lhe seja dito,
como está escrito: "Amigo, a que vieste?". [4] Seja-lhe
concedido, entretanto, colocar-se depois do Abade, dar a bênção
e celebrar Missa, mas se o Abade mandar. [5] Em caso contrário,
não presuma fazer coisa alguma, sabendo que é súdito da
disciplina regular; antes, dê a todos exemplos de maior
humildade. [6] E se, por acaso, no mosteiro surgir questão de
preenchimento de cargo ou outro qualquer assunto, [7] atente
para o lugar da sua entrada no mosteiro e não para aquele que
lhe foi concedido em reverência para com o sacerdócio. [8] Se
algum da ordem dos clérigos, pelo mesmo desejo, quiser
associar-se ao mosteiro, sejam colocados em lugar mediano, [9]
mas desde que prometam, também eles, a observância da Regra e a
própria estabilidade.
CAPÍTULO 61 - Dos monges peregrinos como devem ser recebidos
[ voltar ]
[1] Se chegar
algum monge peregrino de longínquas províncias e quiser habitar
no mosteiro como hóspede, [2] e mostra-se contente com o costume
que encontrou neste lugar, e, porventura, não perturba o
mosteiro com suas exigências supérfluas, [3] mas simplesmente
está contente com o que encontra, seja recebido por quanto tempo
quiser. [4] Se repreende ou faz ver alguma coisa razoavelmente e
com a humildade da caridade, trate o Abade prudentemente desse
caso, pois talvez por causa disto Deus o tenha enviado. [5] Mas,
se depois quiser firmar a sua estabilidade, não se rejeite tal
desejo, máxime porque se pôde conhecer sua vida durante o tempo
da hospedagem.
[6] Mas, se
durante o tempo da hospedagem for julgado exigente em coisas
supérfluas ou vicioso, não somente não deve ser associado ao
corpo do mosteiro, [7] como também lhe seja dito honestamente
que se vá embora para que também outros não se viciem com sua
miséria. [8] Mas, se não for tal que mereça ser expulso, - não
somente, se pedir para aderir à comunidade, seja ele recebido,
[9] mas também seja persuadido a ficar, para que outros sejam
instruídos pelo seu exemplo [10] e porque em todo lugar se serve
a um só Senhor, milita-se sob um só Rei. [11] E se o Abade
julgar que o merece, seja-lhe lícito estabelecê-lo em lugar um
pouco mais alto. [12] Não só para um monge, mas também para os
já referidos ordenados sacerdote e clérigos, pode o Abade
estabelecer um lugar mais elevado que aquele em que ingressam,
se achar ser digna de tal a vida deles. [13] Cuide, porém, o
Abade que nunca receba, para ficar, monge de outro mosteiro
conhecido, sem o consentimento do respectivo Abade ou carta de
recomendação, [14] porque está escrito: "Aquilo que não queres
que te seja feito, não o farás a outrem".
CAPÍTULO 62 -
Dos sacerdotes do mosteiro
[ voltar ]
[1] Se o Abade
quiser pedir que alguém seja ordenado presbítero ou diácono para
si, escolha dentre os seus, quem seja digno de desempenhar o
sacerdócio. [2] Acautele-se o que tiver sido ordenado contra o
orgulho ou soberba [3] e não presuma fazer senão o que for
mandado pelo Abade, sabendo que deverá submeter-se muito mais à
disciplina regular. [4] E não se esqueça, por causa do
sacerdócio, da obediência e da disciplina da Regra, mas progrida
mais e mais para Deus.
[5] Atente
sempre para o lugar em que entrou no mosteiro, [6] exceto no
ofício do altar, mesmo que, pelo mérito de sua vida, o quiserem
promover a escolha da comunidade e a vontade do Abade. [7]
Saiba, no entanto, observar de sua parte a Regra constituída
para os Decanos e Priores. [8] E se presumir proceder de outro
modo, seja julgado não como sacerdote, mas como rebelde; [9] e
se, admoestado muitas vezes, não se corrigir, chame-se também o
bispo em testemunho. [10] Se nem assim se emendar, sendo claras
as suas faltas, seja expulso do mosteiro, [11] mas isso no caso
de ser tal a sua contumácia, que não queira submeter-se ou
obedecer à Regra.
CAPÍTULO 63 - Da
ordem na comunidade
[ voltar ]
[1] Conservem
os monges no mosteiro a sua ordem, conforme o tempo que têm de
vida monástica, o merecimento da vida e conforme o Abade
constituir. [2] Que o Abade não perturbe o rebanho que lhe foi
confiado, nem usando como que de livre poder, disponha alguma
coisa injustamente: [3] mas lembre-se sempre de que deverá
prestar contas a Deus de todos os seus juízos e obras. [4]
Portanto, segundo a ordem que ele tiver estabelecido ou que
tiverem os irmãos, apresentem-se estes para a Paz, para a
comunhão, para entoar os salmos, para estar no coro. [5] Em
qualquer lugar que seja, que a idade não distinga ou prejudique
aquela ordem, [6] porque Samuel e Daniel, meninos, julgaram
anciãos. [7] Portanto, exceto aqueles, que, como dissemos, com
superior conselho, o Abade tiver posto à frente ou postergado
por determinados motivos, todos os demais estejam segundo a
ordem de ingresso, [8] de modo que, por exemplo, aquele que
chegar ao mosteiro na segunda hora do dia, se reconhecerá mais
moço do que o que chegar na primeira hora do dia, seja qual for
a idade ou dignidade; [9] quanto aos meninos, seja a disciplina
em tudo conservada por todos.
[10] Por isso,
honrem os mais moços aos mais velhos que eles e os mais velhos
amem aos irmãos mais moços: [11] No próprio modo de chamar pelo
nome, a ninguém seja permitido chamar o outro pelo simples nome,
[12] mas os mais velhos chamem aos mais moços pelo nome de
irmãos e os mais moços chamem aos mais velhos de "nonos", o que
significa reverência paterna. [13] O Abade, que se crê fazer as
vezes do Cristo, seja chamado Senhor e Abade, não em virtude de
sua própria atribuição, mas em honra e por amor a Cristo. [14]
Que ele pense nisso e se mostre de tal forma que seja digno de
tal honra. [15] Em qualquer lugar em que se encontrem os irmãos,
peça o mais moço a bênção ao mais velho. [16] Passando um mais
velho, levante-se o mais moço e ceda-lhe o lugar, e não presuma
o mais moço se assentar junto, a não ser que o convide o seu
irmão mais velho, [17] a fim de que se faça o que está escrito:
"Antecipando-se mutuamente em honra". [18] Os meninos pequenos e
adolescentes conservem com disciplina sua ordem no oratório e na
mesa. [19] Fora ou em qualquer lugar, sejam guardados e tenham
disciplina até que atinjam a idade da compreensão.
CAPÍTULO 64 - Da
ordenação do Abade
[ voltar ]
[1] Na
ordenação do Abade considere-se sempre a seguinte norma: seja
constituído aquele que tiver sido eleito por toda a comunidade
concorde no temor de Deus, ou, então, por uma parte, de conselho
mais são, ainda que pequena. [2] Aquele que deve ser ordenado
seja eleito pelo mérito da vida e pela doutrina da sabedoria,
ainda que seja o último na ordem da comunidade. [3] E se toda a
comunidade eleger, em conselho comum, o que não aconteça, uma
pessoa conivente com seus vícios [4] e estes vícios chegarem de
algum modo ao conhecimento do bispo da diocese a que pertence o
lugar, ou se tornarem evidentes para os Abades ou cristãos
vizinhos, [5] não permitam que prevaleça o consenso dos maus,
mas constituam para a casa de Deus um dispensador digno, [6]
sabendo que por isso receberão a boa recompensa, se o fizerem
castamente e com zelo divino; mas se, pelo contrário
negligenciam, cometerão pecado.
[7] Pense
sempre o Abade ordenado no ônus que recebeu e a quem deverá
prestar contas da sua administração, [8] e saiba convir-lhe mais
servir que presidir. [9] Deve ser, pois, douto na lei divina
para que saiba e tenha de onde tirar as coisas novas e antigas;
deve ser casto, sóbrio, misericordioso [10] e faça prevalecer
sempre a misericórdia sobre o julgamento, para que obtenha o
mesmo para si. [11] Odeie os vícios, ame os irmãos. [12] Na
própria correção proceda prudentemente e não com demasia, para
que, enquanto quer raspar demais a ferrugem, não se quebre o
vaso; [13] e suspeite sempre da própria fragilidade, e lembre-se
que não deve esmagar o caniço já rachado. [14] Com isso não
dizemos que permita que os vícios sejam nutridos, mas que os
ampute prudentemente e com caridade, conforme vê que convém a
cada um, como já dissemos; [15] e se esforce por ser mais amado
que temido. [16] Não seja turbulento nem inquieto, não seja
excessivo nem obstinado, nem ciumento, nem muito desconfiado,
pois, nunca terá descanso; [18] seja prudente e refletido nas
suas ordens, e quer seja de Deus, quer do século o trabalho que
ordenar, faça-o com discernimento e equilíbrio, [18]
lembrando-se da discrição do santo Jacó, quando diz: "Se fizer
meus rebanhos trabalhar andando demais, morrerão todos num só
dia". [19] Assumindo esse e outros testemunhos da discrição, mãe
das virtudes, equilibre tudo de tal modo, que haja o que os
fortes desejam e que os fracos não fujam; [20] precipuamente,
conserve em tudo a presente Regra [21] para que, depois de ter
bem administrado, ouça do Senhor o que disse ao bom servo que
distribuiu o trigo a seus conservos no devido tempo: [22] "Na
verdade vos digo - diz - estabelece-o sobre todos os seus bens".
CAPÍTULO 65 - Do
Prior do mosteiro
[ voltar ]
[1] Muitas
vezes acontece que, pela ordenação do Prior, se originam graves
escândalos nos mosteiros; [2] quando existem alguns que,
inchados por um maligno espírito de soberba e julgando-se
segundos Abades, atribuindo a si mesmos um poder tirânico,
nutrem escândalos e fazem dissenções nas comunidades [3]
principalmente naqueles lugares em que, pelo mesmo sacerdote ou
pelos mesmos Abades que ordenam o Abade, é também ordenado o
Prior. [4] Facilmente se verifica o quanto isto é absurdo
porque, desde o início da ordenação se lhe dá matéria para se
orgulhar, [5] enquanto os seus pensamentos lhe sugerem que está
livre do poder de seu Abade: [6] "porque és ordenado, também tu,
pelos mesmos que o Abade". [7] Daí são suscitadas invejas,
brigas, detrações, rivalidades, dissenções, desordens, [8] pois,
enquanto o Abade e o Prior sentem de maneira diferente,
necessariamente, sob esta dissensão, perigam suas almas; [9] os
que lhes estão subordinados, enquanto adulam as partes, caminham
para a perdição. [10] O mal deste perigo recai, em primeiro
lugar, sobre aqueles que se fizeram autores de tal desordem.
[11] Por isso
achamos conveniente, para a defesa da paz e da caridade, que
dependa do arbítrio do Abade a organização do seu mosteiro. [12]
E, se for possível, seja organizado por meio dos Decanos, como
estabelecemos acima, todo o serviço do mosteiro, conforme
dispuser o Abade; [13] para que, sendo confiado a muitos um só
não se ensoberbeça. [14] E se o lugar o exige ou a comunidade
pedir razoavelmente e com humildade, e o Abade julgar
conveniente, [15] ordene ele próprio, para si, o Prior, na
pessoa de quem quer que, com o conselho dos irmãos tementes a
Deus, tiver escolhido. [16] Execute, pois, o Prior, com
reverência, aquilo de que for encarregado pelo Abade, nada
fazendo contra a vontade ou disposição do Abade; [17] porque
quanto mais elevado está acima dos outros, tanto mais
solicitamente lhe cumpre observar os preceitos da Regra. [18] Se
este Prior for achado com vícios ou se ensoberbecer, enganado
pelo orgulho, ou se se tornar desprezador comprovado da Santa
Regra, seja admoestado por palavras até a quarta vez; [19] se
não se emendar, aplique-se-lhe a correção da disciplina regular.
[20] E se nem assim se corrigir, seja então expulso da ordem de
Prior e coloque-se, em seu lugar, outro que seja digno. [21] Se
depois não permanecer quieto e obediente na comunidade, seja
também expulso do mosteiro. [22] Pense, no entanto, o Abade que
deve dar contas a Deus de todos os seus juízos, para que não
aconteça que a chama da inveja e do ciúme queime a sua alma.
CAPÍTULO 66 -
Dos porteiros do mosteiro
[ voltar ]
[1] Coloque-se
à porta do mosteiro um ancião sábio que saiba receber e
transmitir um recado e cuja maturidade não lhe permita vaguear.
[2] O porteiro deverá ter a cela junto à porta para que os que
chegam o encontrem sempre presente e dele recebam resposta. [3]
Logo que alguém bater ou um pobre chamar, responda "Deo gratias"
ou "Benedic" [4] e, com toda a mansidão do temor de Deus,
responda com presteza e com o fervor da caridade. [5] Se o
porteiro precisa de auxiliar, receba um irmão mais moço. [6]
Seja, porém, o mosteiro, se possível, construído de tal modo que
todas as coisas necessárias, isto é, água, moinho, horta e os
diversos ofícios, se exerçam dentro do mosteiro, [7] para que
não haja necessidade de os monges vaguearem fora, porque, de
nenhum modo convém às suas almas. [8] Queremos que esta Regra
seja freqüentemente lida na comunidade para que nenhum irmão se
escuse por ignorância.
CAPÍTULO
67 - Dos irmãos mandados em viagem
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[1] Os irmãos
que vão partir em viagem recomendem-se às orações de todos os
irmãos e do Abade; [2] e sempre, na última oração do Ofício
Divino, faça-se a comemoração de todos os ausentes. [3] Os
irmãos que voltam de viagem, no mesmo dia em que chegam, em
todas as Horas canônicas, quando termina o Ofício Divino,
prostrados no chão do oratório, [4] peçam a todos a sua oração
por causa dos excessos que, porventura, durante a viagem, se
tenham nele insinuado, vendo ou ouvindo coisas más ou em
conversas ociosas. [5] E ninguém presuma relatar a outrem
qualquer das coisas que tiver visto ou ouvido fora do mosteiro,
pois é grande a destruição. [6] E se alguém presumir fazê-lo,
seja submetido ao castigo regular, [7] da mesma forma quem
presumir sair dos claustros do mosteiro ou ir a qualquer lugar,
ou fazer qualquer coisa, por menor que seja, sem ordem do Abade.
CAPÍTULO 68 - Se são ordenadas a um irmão coisas impossíveis
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[1] Se a algum
irmão são acaso ordenadas coisas pesadas ou impossíveis, que
receba a ordem de quem manda com toda a mansidão e obediência.
[2] Se vê que o peso do ônus excede absolutamente a medida de
suas forças, sugira paciente e oportunamente ao seu superior as
causas de sua impossibilidade, [3] não se enchendo de soberba,
nem resistindo ou contradizendo. [4] Se, depois de sua sugestão,
a ordem do superior permanecer em sua determinação, saiba o
súdito ser-lhe isso conveniente [5] e, confiando pela caridade,
no auxílio de Deus, obedeça.
CAPÍTULO 69 - No mosteiro não presuma um defender o outro
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[1] Deve-se
tomar precaução para que no mosteiro não presuma um monge
defender outro, seja por que motivo for, ou como que protegê-lo,
[2] mesmo se ligados por qualquer laço de consangüinidade. [3]
De modo algum seja isso presumido pelos monges, pois por este
meio pode originar-se gravíssima ocasião de escândalos. [4] Se
alguém tiver transgredido isso, seja mais severamente punido.
CAPÍTULO 70 - Não presuma alguém bater em outrem a próprio
arbítrio
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[1] Seja
vedada no mosteiro toda ocasião de presunção, [2] e determinamos
que a ninguém seja lícito excomungar ou bater em qualquer dos
seus irmãos, a não ser aquele a quem foi dado o poder pelo
Abade. [3] Que os transgressores sejam repreendidos diante de
todos para que os demais tenham medo. [4] A diligência da
disciplina e guarda das crianças até quinze anos de idade caiba
a todos, [5] mas, também isso, com toda medida e inteligência.
[6] Quem de qualquer modo o presume, sem ordem do Abade, contra
os que já são mais velhos, ou bater sem discrição mesmo nas
crianças, seja submetido à disciplina regular, [7] porque está
escrito: "Não faças a outrem o que não queres que te façam".
CAPÍTULO 71 - Que sejam obedientes uns aos outros
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[1] Não só ao
Abade deve ser tributado por todos o bem da obediência, mas, da
mesma forma, obedeçam também os irmãos uns aos outros, [2]
sabendo que por este caminho da obediência irão a Deus. [3]
Colocado, pois, antes de tudo o poder do Abade e dos superiores
por ele constituídos, ao qual não permitimos que seja antepostos
poderes particulares - [4] quanto ao mais, que todos os mais
moços obedeçam aos respectivos irmãos mais velhos, com toda a
caridade e solicitude. [5] Se se encontrar algum com espírito de
contenção, que seja castigado. [6] Se algum irmão, por qualquer
motivo, ainda que mínimo, for repreendido, de qualquer modo pelo
Abade ou por qualquer superior seu, [7] ou se levemente sentir o
ânimo de qualquer superior seu irado ou alterado contra si,
ainda que pouco, [8] logo, sem demora, permaneça prostrado em
terra, a seus pés, fazendo satisfação, até que pela bênção
esteja sanada aquela comoção. [9] Se alguém não o quiser fazer,
ou seja submetido a castigo corporal ou, se for contumaz, seja
expulso do mosteiro.
CAPÍTULO 72 - Do bom zelo que os monges devem ter
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[1] Assim como
há um zelo mau, de amargura, que separa de Deus e conduz ao
inferno, [2] assim também há o zelo bom, que separa dos vícios e
conduz a Deus e à vida eterna. [3] Exerçam, portanto, os monges
este zelo com amor ferventíssimo [4] isto é, antecipem-se uns
aos outros em honra. [5] Tolerem pacientissimamente suas
fraquezas, quer do corpo quer do caráter; [6] rivalizem em
prestar mútua obediência; [7] ninguém procure aquilo que julga
útil para si, mas, principalmente, o que o é para o outro; [8]
ponham em ação castamente a caridade fraterna; [9] temam a Deus
com amor; [10] amem ao seu Abade com sincera e humilde caridade;
[11] nada absolutamente anteponham a Cristo - [12] que nos
conduza juntos para a vida eterna.
CAPÍTULO 73 - De que nem toda a observância da justiça se acha
estabelecida nesta Regra
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[1] Escrevemos
esta Regra para demonstrar que os que a observamos nos
mosteiros, temos alguma honestidade de costumes ou algum início
de vida monástica. [2] Além disso, para aquele que se apressa
para a perfeição da vida monástica, há as doutrinas dos Santos
Padres, cuja observância conduz o homem ao cume da perfeição.
[3] Que página, com efeito, ou que palavra de autoridade divina
no Antigo e no Novo Testamento não é uma norma retíssima da vida
humana? [4] Ou que livros dos Santos Padres Católicos ressoam
outra coisa senão o que nos faça chegar, por caminho direto, ao
nosso Criador? [5] E também as Colações dos Padres, as
Instituições e suas Vidas, e também a Regra de nosso santo Pai
Basílio, [6] que outra coisa são senão instrumentos das virtudes
dos monges que vivem bem e são obedientes? [7] Mas para nós,
relaxados, que vivemos mal e somos negligentes, são o rubor da
confusão. [8] Tu, pois, quem quer que sejas, que te apressas
para a pátria celeste, realiza com o auxílio de Cristo esta
mínima Regra de iniciação aqui escrita [9] e, então, por fim,
chegarás, com a proteção de Deus, aos maiores cumes da doutrina
e das virtudes de que falamos acima. Amém.
Termina a
Regra |